O cinema cearense está em festa com as duas grandes notícias desta semana: “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz foi o longa escolhido para representar o Brasil na disputa a uma vaga no Oscar; E “Pacarrete”, de Allan Deberton, conquistou oito prêmios no Festival de Cinema de Gramado, incluindo Melhor Filme. 

“Pacarrete é uma história de resistência”, afirma Allan Deberton, durante entrevista realizada, nesta quinta-feira (28), na sala de sua casa, logo depois de voltar de viagem. “Não repara na bagunça, é que eu estava viajando”. A viagem foi para Gramado, cidade localizada na Serra Gaúcha. Na mala, oito Kikitos conquistados com o filme Pacarrete. Quatro dos prêmios estavam expostos na sala do diretor, dando boas-vindas aos visitantes do apartamento.

Pacarrete conta a história da bailarina de Russas, uma mulher real, figura folclórica da cidade e uma lembrança guardada com muito carinho e curiosidade na mente de Allan desde a infância. “As pessoas achavam que ela era doida. Ela ficava na rua fazendo confusão e gostava de usar roupas coloridas e exageradas. Uma personagem totalmente diferente do comum”.

“Quando eu soube que na verdade ela era bailarina, e que faleceu, com mais de 90 anos, querendo fazer arte no interior, em Russas, isso me tocou bastante”, declara o diretor.

Contar esta história sempre foi a meta. Foram anos de pesquisa para poder entender a personagem, como ela se vestia, como ela falava, como que era essa Pacarrete que as pessoas conheciam. Esse tempo também serviu para o crescimento do próprio diretor. Para ele, “era importante conquistar um mínimo de maturidade para poder fazer juz a personagem título”.

Nascido no interior, o primeiro contato de Allan com filmes foi a partir da televisão, como muitas outras crianças de sua geração. “A Princesa Xuxa e os Trapalhões” foi o primeiro longa no cinema, que na época, encantou o jovem. “Dentro do meu imaginário, eu sempre tive o desejo de fazer filme, mas não sabia como. Lembro ter feito uma câmera com caixa de sapato e colocava no ombro e fingia que estava gravando”.

A formação veio anos depois, na Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro. O primeiro curta, Doce do Coco, lançado depois da graduação em cinema, fez com que Allan já conquistasse a crítica. Isto motivou ainda mais a continuar e persistir na carreira até chegar o momento certo de Pacarrete. 

Festival de Gramado 

Foto: Edison Vara/Agência Pressphoto

O filme de Allan conquistou não apenas os prêmios, como também o coração do público de Gramado. Ovacionado, Pacarrete conseguiu emocionar e gerar reflexão. “Tínhamos feito um filme sincero. Mas ainda assim, apesar de acreditarmos no filme, no seu valor e no trabalho que desenvolvemos, eu nunca pensei que iríamos atingir tão forte as pessoas na sessão da estreia”, declara.

“Com a exibição, percebemos que o filme trouxe esse sentimento de empatia, de torcer pela conquista do outro, pela vitória do outro. Para nós, era muito emocionante ver aquela plateia emocionada, ver que ficou uma mensagem positiva para quem assistiu”. O filme conquistou oito Kikitos, incluindo melhor Filme (do júri e popular), Direção e Roteiro, que é assinado por Allan em parceria com André Araújo, Natália Maia e Samuel Brasileiro.

Allan também comentou sobre o atual cenário do cinema cearense. Halder Gomes conquistou sucesso de público, sendo mais uma vez uma das principais bilheterias do ano no Brasil. Karim Aïnouz trouxe para o Ceará um prêmio no Festival de Cannes, uma das principais vitrines do cinema mundial. Para o cineasta, “isso só reforça o valor do nosso cinema, de como ele é grandioso, de como histórias contadas a partir de um olhar cearense conseguem chegar forte e longe.

Cine Ceará

De volta para Fortaleza, agora com o filme na boca de todo mundo na cidade, um público orgulhoso pela conquista da cultura cearense. A expectativa é para a estreia na capital cearense. O filme será exibido na sexta-feira (06), no encerramento do Cine Ceará. 

“A minha expectativa é de corresponder a expectativa (risos). Mas, na verdade, eu fico pensando que vamos ter uma sessão ainda mais emotiva em virtude das muitas pessoas que ouviram falar da Pacarrete e que estão se organizando para irem para a sessão. Eu penso que vai ser uma sessão bem bonita”.

Allan tem uma relação de longa data com festival. Todos os seus curtas foram exibidos no Cine Ceará, que serviu como vitrine para apresentar o seu trabalho para o resto do País e ajudou no crescimento do seu trabalho.

O público cearense tem um encontro marcado com Allan e parte do elenco de Pacarrete, na sexta-feira (06), no Cineteatro São Luiz. Alan espera corresponder a expectativa do público e conseguir transmitir para o Ceará a história dessa mulher.

Foto Destaque: Edison Vara/Agência Pressphoto