O dia 13 de abril marca os 293 anos de Fortaleza, com show especial no Aterrinho da Praia de Iracema, inclusive de artistas nacionais como Zeca Baleiro, além da presença de cearenses como o cantor Ednardo, a partir de 18h.

Para celebrar a data, convidamos a escritora e pesquisadora memorialista Leila Nobre, autora do blog Fortaleza Nobre, e o jornalista Nirez para relembrar fatos curiosos sobre a cidade.

Veja os cinco fatos destacados por Leila:

Barra do Ceará tem 414 anos

A primeira delas, sem dúvida, é o fato de a cidade possuir um bairro mais antigo que ela, como é o caso da nossa Barra do Ceará, com seus 414 anos, enquanto a aniversariante comemora 293 anos. Em 1604, às margens do rio Ceará, foi instalado o Forte de São Tiago (considerada a primeira edificação
da cidade) e dado o nome de Nova Lisboa ao povoado que se formaria em torno dele. Mas, em 1606, não suportando a escassez de água e alimentos, devido a primeira grande seca registrada em nossa história, o forte foi abandonado. Em fins de 1611, acompanhado de um padre e de seis soldados, o capitão português Martim Soares Moreno regressou ao Ceará e no mesmo local que Pedro Coelho construiu o Forte de São Tiago, este ergueu, em 20 de janeiro de 1612, o Forte do Siará (Forte de São Sebastião). Com o passar dos anos, o forte foi abandonado, destruído e reconstruído diversas vezes.

Até que em 1644, o forte foi assaltado e destruído por índios revoltados.
Em 03 de abril de 1649, Matias Beck (holandês) aportou à enseada do Mucuripe com mais 298 homens. Passou a explorar a costa até a barra do rio Ceará, com o fim de escolher um local para também construir um forte. A colina situada à margem esquerda do Pajeú e denominada Marujaitiba pelos indígenas foi o local escolhido. Em 1654, em consequência da derrota sofrida pelos holandeses na província de Pernambuco, Matias Beck foi obrigado a entregar o Forte aos portugueses, e o fez ao Capitão-Mor Álvaro de Azevedo Barreto, fato ocorrido em 20 de maio de 1654. Ao receber o forte, o capitão mudou-lhe o nome para Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Ao redor da Fortaleza, pobremente edificadas, erguiam-se choupana e palhoças, abrigos dos primeiros habitantes da cidade
que nascia. O local se desenvolveu e, no dia 13 de abril de 1726, Fortaleza foi finalmente elevada à categoria de vila.

Você conhece o Boró?

Hoje, nós temos a Palma, uma moeda que só circula no Conjunto Palmeiras, mas há muito tempo, segundo Raimundo Menezes em “Coisas que o tempo levou”, circulou em Fortaleza um dinheiro muito especial, o Boró. Uma espécie de vale emitido inicialmente pela Câmara Municipal e pela Companhia de Bondes, mas que depois virou uma bagunça, pois todo mundo passou a fazer os seus próprios borós.

Chegou a um ponto que quase não se via mais o dinheiro propriamente dito. Quando o governo federal mandou acabar com a inovação monetária, a coisa já assumia grandes proporções e muita gente que emitia borós sem ter dinheiro para resgatá-los acabou na falência. Os borós foram emitidos a torto e a direito, grassou como que uma verdadeira epidemia de borós. Qualquer um se achava com o direito de lançá-los. E surgiram “à bessa”, de todos os formatos, de todos os tamanhos, impressos e escritos à mão, bonitos e feios, coloridos e de uma só cor, todos valendo ora 100 ora 200 réis e ensaiaram resolver a difícil questão do troco. Os borós que circularam com melhor aceitação foram os emitidos pela Câmara Municipal de Fortaleza, em 1896, sendo intendente Guilherme da Rocha, para custear por
360.000$000 a construção do Mercado de Ferro.

Cajueiro da mentira

Existia na Praça do Ferreira, um frondoso cajueiro que no dia primeiro de abril, feriado nacional da mentira, juntava-se ali dezenas de pessoas – homens da sociedade, plebeus, artistas, pequenos comerciantes, enfim, toda casta de gente que lia cartazes pregados no tronco nodoso do cajueiro. Os
cartazes, como relata Otacílio de Azevedo no seu “Fortaleza Descalça”, noticiavam as maiores mentiras, denunciavam mil coisas e, às vezes, a sua leitura provocava discussões e até brigas violentas.

Foto: Arquivo Nirez

O Café Java, era a sede do pleito político dos potoqueiros e onde se preparava as chapas para as eleições de mentira. De manhã cedo, até ao anoitecer, não se mediam horas, ninguém trabalhava noutra coisa a não ser na eleição dos seus candidatos. Embandeiravam os galhos do velho cajueiro com as chapas e cartazes. À noite, o nome do vitorioso era colocado no cajueiro, havendo discursos e aplausos. Até que em 1920, o prefeito Godofredo Maciel, num gesto frio e desumano mandou que cortassem o cajueiro. O desalmado prefeito muito perdeu na simpatia dos assíduos frequentadores e programadores do memorável dia da mentira.

Gatos pingados

Na Fortaleza antiga, os enterros eram verdadeiras procissões, que se estendiam, algumas vezes, por mais de um dos nossos quarteirões. Durante todo o cortejo, o caixão repousava nos ombros dos “gatos pingados”, pobres homens ridicularizados, que, aliás, prestavam um grande e penível serviço a mortos e vivos, pois não lhe custava pequeno esforço percorrer dois ou mais quilômetros em marcha lenta, carregando peso, vestidos como iam, embaixo de sol. “Em Fortaleza Velha”, João Nogueira relata esse verdadeiro sacrifício que era ir da matriz ao Cemitério São João Batista, vestido de preto, sol das quatro horas pela frente, sobre um péssimo calçamento. Após o percurso de 1300 metros, que, portanto se estende a rua Castro e Silva (antiga rua das Flores), chegavam ao cemitério esbaforidos, mas de tal
caminhada ninguém se queixava, dados os sentimentos que a todos afligia. Na Fortaleza antiga, quando o morto não tinha muito prestígio ou não era bem quisto, poucas pessoas seguiam o cortejo, e algumas vezes, apenas os quatro “gatos pingados”, assim quem morava nos arredores do Cemitério de São João Batista, corria para assistir o enterro e comentar depois: “Não deu
ninguém, só os quatro gatos pingados”.

Coca-colas no Estoril

O Centro Cultural da Praia de Iracema, Estoril, já teve várias utilidades desde que foi construído pelo comerciante pernambucano, descendente de portugueses, José Magalhães Porto. Dessas utilidades, uma me chama atenção, pois nos trouxe as famosas e corajosas “Coca-Colas”. Servindo inicialmente de residência, em 1942, com a chegada da Segunda Guerra Mundial, a família Porto desloca-se para outra casa ao lado e arrendam a Vila Morena para às tropas americanas, que em 1943, o transformaram em
cassino, sob a denominação de U.S.O. – United State Office. Era o clube de veraneio dos soldados. O clube, de acesso quase exclusivo dos estrangeiros, teve na cidade grande repercussão e isso devido às suas noitadas patrocinadas pelo governo americano, com danças, jogos e shows de célebres artistas do cinema. São vários os relatos de que esse clube tornou-se um atrativo para as moças, que se dirigiam ao local para namorar os oficiais americanos, ficando conhecidas na cidade como Coca-Colas. Segundo Marciano Lopes, as “Coca-Colas” surgiram, simultaneamente, com a chegada dos soldados americanos, no alvorecer dos anos 40. Melhor dizendo, elas foram consequência da permanência daqueles militares
ianques em nossa capital. O epíteto Coca-Cola surgiu do fato de elas terem o privilégio de tomar o famoso refrigerante americano que, àquela época, a gente só conseguia “saborear” através dos filmes made in Hollywood. Também, por ser a Coca-Cola um dos mais conhecidos símbolos americanos. As Coca-Colas eram moças da sociedade, bem nascidas, de famílias tradicionais, lindas, elegantes, vistosas, inteligentes, educadas e imponentes, que tiveram coragem de enfrentar as críticas e condenações da
época.

Já Nirez relembrou duas histórias especiais:

“Galêgos”

Havia em Fortaleza a mania de chamar os sírios, libaneses, árabes e armênios de “galêgo”. Não sei o motivo, sei que existia um deles que teve uma ideia e pôs em prática. Quando chegava um freguês e perguntava por ele, ele respondia de forma confusa: “soaeiu” e perguntava do que se tratava. Se era para comprar algo ele dizia: “sim, sou eu!” mas se era algum cobrador ele dizia: “Eu já disse que ‘saiu’!”.

Manezinho do Bispo

Havia na porta do Palácio do Bispo um ajudante conhecido por Manezinho do Bispo. Era metido a poeta e  mandava imprimir livretos, assim como livreto de cordel com suas poesias e vendia ali mesmo. O Bispo, que era Dom Manuel, soube do comércio, chamou-o e disse: “Manezinho, não quero esse comércio, queime todos esses livretos”. No dia seguinte chegou um auxiliar e lhe disse: “O Manezinho continua vendendo os livretos”. Dom Manuel foi pessoalmente constatar e lhe disse com raiva: “Eu não lhe disse para queimar esses livretos?”. E Manezinho lhe respondeu: “E eu estou queimando, ontem era 500 réis, hoje estou vendendo a 200 réis”.