19 out 2025 | MT Acontece

Aos 54 anos, a visada de Cristina Vasconcelos no mundo da arte está só começando. Em “Arqueologia da superfície”, sua primeira exposição individual, a artista visual cearense explora os cruzamentos entre fato e memória, real e imaginado, criando fabulações sobre a vida pré e pós-histórica.
Com pinturas, objetos, fotografias e desenhos, além de instalações e esculturas, Cristina constrói uma poética investigativa e arqueológica que ressignifica a relação humana com o tempo. A mostra, que chega à galeria Cave no dia 28 de outubro, compila cerca de 60 obras da artista, passeando por sua trajetória ao longo de 10 anos de incursões na arte contemporânea.
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“O que me interessa é a história das coisas. É a densidade das ruínas, do que a gente vai encontrando pelo mundo” – Cristina Vasconcelos
Durante duas décadas, Cristina Vasconcelos manteve seu amor e sua curiosidade pela arte em segundo plano. Trabalhando com comunicação visual e ambientação comercial, a cearense transitava por diversos espaços, viajando constantemente entre estados para a elaboração e execução de seus projetos. Nesse meio tempo, aeroportos, estações de trem e rodoviárias se tornaram lugares rotineiros e frequentes. “Ali experimentei frio, calor, medo, ansiedade… nunca eram lugares confortáveis”, disse a artista em entrevista à Plataforma MT.
A virada de chave aconteceu em 2014, quando, finalmente, decidiu mudar de carreira e se embrenhar no mundo da arte, participando de aulas e cursos em galerias locais e fora do estado – inclusive, no Parque Lage, referência nacional no ensino artístico. “Eu comecei assim: eu ia para o Rio de Janeiro estudar. Passava, às vezes, três dias e voltava [para Fortaleza]. Então, depois do meu período da comunicação visual, veio o meu período de estudos, que eu também passava muito tempo nesses lugares, nesses deslocamentos.”
Em uma dessas viagens aéreas, ao passar por uma turbulência, Cristina lembrou do acidente na Serra da Aratanha envolvendo uma aeronave da VASP – que, na ocasião, tirou a vida das 137 pessoas a bordo, entre passageiros e tripulantes. O episódio, ocorrido em 1982, é considerado uma das maiores tragédias da aviação no país, e foi motivo de muita comoção. “Foi ali que começou a minha primeira arqueologia – uma história densa e cheia de dualidades.”

Num cruzamento entre documento e ficção, Cristina passou a explorar as múltiplas poéticas do fato histórico, indo atrás de peças e pessoas que pudessem recompor o acontecimento. Assim surgiu a série Sudários e os primeiros esboços do que definiria como Arqueologia da Superfície, metáfora que sintetiza as investigações teóricas e práticas empreendidas pela artista.
“Eu pego essas peças [de aeronaves], coloco sobre as telas e deixo o tempo agir de novo e recontar uma nova história. Por isso que eu digo que o meu trabalho tem muito um ‘ressignificar’. É sobre pensar que cada peça, cada coisa do mundo carrega uma história. E essas histórias podem se transformar em outras histórias, podem se ressignificar. Mas você também pode pegar aquilo e construir algo novo. Essas minhas arqueologias funcionam dessa forma”, explicou.
E foi então que, ao longo de 10 anos, Cristina Vasconcelos mobilizou temas e formou um corpo artístico coeso e maduro, reconstituindo ruínas e fragmentos da memória com elaborações poéticas que se materializam em obras de arte. Para Lucas Dilarceda, curador da exposição, os trabalhos da artista falam por meio da matéria.
“O ferro, o barro, a ferrugem, o pó tudo vibra como se ainda guardasse o calor de uma vida anterior. É uma poética de reanimação, mas também de luto. Ela se aproxima das ruínas não para restaurá-las, mas para conversar com elas, permitir que continuem a se transformar”, destacou Dilacerda.

Nas telas da série Sedimentos Incorpóreos, o ferro oxidado vira tinta e cria formas orgânicas em tons avermelhados que ora lembram mapas, ora lembram fósseis, como resultado de uma arqueologia que escava a “pele do mundo” e propõe uma reflexão sobre a Terra sem a presença humana, num período pré e pós-histórico.
Assim, como uma artista da história, Cristina Vasconcelos cruza fato e fábula. “Arqueologia da superfície”, testemunho de sua curiosidade, persistência e reinvenção, nos convida a olhar, simultaneamente, para dentro e para fora, imaginando histórias que se situam entre realidade e ficção em 60 obras que encapsulam o tempo e revelam vestígios de uma arte-vida passível de pretérito, presente e futuro.
“Arqueologia da superfície”
Período em cartaz: 28 de outubro de 2025 a 20 de dezembro de 2025
Abertura: Terça, 28 de outubro de 2025, 18h às 22h
Endereço: Cave – Rua Pereira Valente, 757 – Casa 03 – CEP: 60160-250 (Travessa Ana Benevides – entre as Ruas Leonardo Mota e Vicente Leite)
Horário de funcionamento:
Terça à sexta – 13h às 19h
Sábado – 10h às 14h
Ficha Técnica
Artista: Cristina Vasconcelos
Curadoria: Lucas Dilacerda
Curadoria Adjunta: Wes Viana
Design: Luana Luna e Lucyano Palheta [AOQUADRADO]
Sound Design: Marco Capela
Edição de Vídeo: Caio Pena
Direção: Pedro Diógenes
Produção: Dharana Vieira
Comunicação Visual: Pedro Bessa
Reprodução das Obras: Wilton Martins e Pedro Bessa
Montagem: Edison Filho, Mateus Oliveira e Amanda Melo [OGGIN LTDA]