25 ago 2026 | Notícias

Existe uma imagem persistente sobre o Ceará como terra da luz. A expressão costuma celebrar o pioneirismo abolicionista do estado e a intensidade solar que molda a paisagem nordestina. Ainda assim, há vidas que florescem naquilo que escapa ao excesso de claridade. Há experiências que encontram, na noite, um espaço de invenção e abrigo. A obra de Gi Monteiro nasce desse lugar.
LEIA MAIS >> BNB Cultural reúne artistas independentes em 2ª edição da Feira de Artes
‘Café entre obras’: Abelardo e Fernando Targino celebram ‘Agosto da Arte’ com artistas e galeristas
Na obra “Mandacaru 1”, a artista cearense de 29 anos evoca a efemeridade da flor do mandacaru, planta típica do semiárido nordestino que desabrocha apenas durante a noite. Enquanto o imaginário colonial associou o escuro ao perigo e ao desconhecido, Gi o transforma em campo fértil de existência.

Travesti negra, historiadora e artista visual, ela investiga o escuro como matéria viva. Em pinturas, desenhos, esculturas e trabalhos têxteis, a noite surge como dimensão política e poética, ligada ao movimento, à memória e às possibilidades de criação fora das estruturas fixas.
LEIA MAIS >> MT Visita apresenta cores e arte em residência assinada por Brenda Rolim
Jovens do IMJK fortalecem formação musical durante intercâmbio na França
Criada no Parque Santana, periferia de Fortaleza, a artista desenvolve uma produção ligada às reflexões sobre tempo e colonialidade, investigação que também dialoga com sua formação em História pela Universidade Estadual do Ceará. “Amo a noite. Meu processo de transição de gênero aconteceu muito próximo da noite, no encontro com amigas e na liberdade que o escuro traz para dançar […] Foi à noite que eclodiram fugas ao sistema escravista e as travestis nomeadas de ‘damas da noite’. Me alio à noite e às minhas experiências ancestrais para criar liberdade no escuro através do meu fazer poético”, aponta.