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Diego Gregório – Uma conversa com os autores Caetano Romão e Fellipe Fernandes

25 set 2025 | Entretenimento

Por Redação

Colunista da Plataforma MT entrevista Caetano Romão e Fellipe Fernandes,
duas vozes da literatura contemporânea que vêm se destacando no cenário nacional
Fellipe Fernandes e Caetano Romão (Foto: Reprodução/Instagram)

Por Diego Gregório

Conversei com Caetano Romão e Fellipe Fernandes, dois autores contemporâneos que acabam de lançar seus segundos livros – Escrevo seu nome no arroz’ e ‘Uma tragédia latino-sertaneja’, respectivamente. Esses, percorrem o país e em comum carregam a força de novas vozes na literatura, que se enraízam no sertão e transformam esse território em matéria de memória e invenção. 

Confira o bate papo com os autores a seguir.

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Diego Gregório (DG): O que o motivou a escrever ‘Uma tragédia latino-sertaneja’ / ‘Escrevo seu nome no arroz’ e como você enxerga a relação entre a literatura e a vida no sertão brasileiro?

Caetano Romão (CR): O romance nasce de uma série de questões que andavam me perseguindo desde a publicação do meu livro de poemas ‘Um nome inteiro disposto à montaria’, em 2021. Principalmente, a catástrofe anunciada como o paradigma do nosso tempo. O modo como a ideia de um “depois” tem sido escamoteada de maneira violenta. O colapso climático, a guerra e as novas tecnologias de extermínio. Isso levando em consideração, é claro, como ao longo da história diversos povos e pessoas já experienciaram os fins de seus mundos de maneira devastadora. O meu interesse, então, era pensar em pontos de fuga e lógicas de cuidado possíveis, mesmo em momentos em que não parece haver nada fora do fim. Alguns pensadores como Nego Bispo e Donna Haraway me inspiraram bastante. 

Fellipe Fernandes (FF): No primeiro livro, eu busquei exprimir o que era inexprimível, o que existia por trás do que a linguagem não dava conta. Então, n’Uma tragédia latino-sertaneja, quis falar sobre identidades apagadas por diversos fatores sociais e políticos, substituídas por máscaras sociais construídas a partir de uma ideia estreita sobre o que deveriam ser o amor, o sexo, o desejo, a vida, os sonhos, as possibilidades de homens que amavam outros homens num contexto de interior de Brasil.

DG: Você acha que o autor sempre carrega experiências pessoais para sua narrativa?

CR: Acredito que há infinitos jeitos de fazer literatura, de negociar os pactos ficcionais com os leitores e de buscar a matéria-prima para a própria escrita. No meu caso, tanto minhas leituras quanto minhas vivências servem como materiais que eventualmente me inspiram a escrever. Mas tudo isso passa por tantas deformações, desvios e delírios que não chega a constituir nada parecido com uma literatura de autoficção. Gosto de pensar a literatura como um espaço propício para a mentira e a despossessão também.

FF: Foi Caetano Veloso que disse, e essa é uma citação já muito clichê, que tudo o que ele escreveu, inclusive o que ele não escreveu, é autobiográfico. Concordo em partes e me explico. Eu, que sou um homem gay, noutro dia me acusaram de não ser gay o bastante, isto é, de não fazer uma literatura que corresponda ao ideário que se tem por referência do que seria gay para determinada classe social, política, econômica, etc.

“Para um autor, é impossível ignorar o poder de mobilização das redes, mas também é impossível abrir mão da crítica que lê o livro como obra, e não como produto de algoritmo”

DG: Qual tem sido a reação do público e da crítica à obra, e como você lida com diferentes interpretações do seu trabalho?

CR: Tenho recebido leituras muito carinhosas e acolhedoras com o livro. A maioria delas foca bastante na questão da ternura como uma marca da história, o que me deixa contente. Enquanto escrevia tinha esse objetivo de provocar esse efeito nas pessoas. 

FF: As pessoas têm sido muito generosas comigo desde o início de tudo. Com o primeiro, ‘Sem mim não há dia’, fui semifinalista do Prêmio Oceanos, que é o maior reconhecimento em língua portuguesa do mundo. 

DG: Quais os maiores obstáculos para que livros de novos autores cheguem às livrarias e leitores fora dos grandes centros? Como foi com você no primeiro livro e o que mudou para o segundo?

CR: Essa pergunta abrange muitas questões que vão desde fatores econômicos e mercadológicos (a dificuldade de distribuição, o encarecimento da produção do livro, a pequena quantidade de livrarias e editoras fora dos grandes centros urbanos) até problemas de ordem social (como a configuração histórica do cânone – hegemonicamente branco, masculino e cisgênero – e as violências e exclusões que ele opera contra determinados grupos). Quando falamos de autores estreantes, isso se agrava ainda mais, já que poucas editoras de grande circulação apostam em primeiras obras.

No meu caso, a publicação do meu primeiro livro de poesia fez com que eu estivesse ativamente engajado com as vendas, sobretudo através das redes sociais. Lancei mão de algumas estratégias de divulgação como a publicação de trechos em revistas de literatura online, a criação de videopoemas e performances, entre outros.

FF: Os maiores obstáculos estão na engrenagem que sustenta o mercado das editoras independentes, é dizer, uma distribuição precária, concentração em poucas redes, falta de investimento das editoras em autores, muitos lançamentos por ano. Com o ‘Sem mim não há dia’, que inclusive teve vitrine de um prêmio importante, sigo esbarrando na barreira invisível que é a circulação. A literatura não se esgota na escrita, ela também precisa atravessar os corredores comerciais e, neles, a desigualdade é brutal.

DG: Pela sua experiência, a crítica literária tradicional ainda tem influência na formação de leitores ou as redes sociais já ocupam esse lugar de mediação?

CR: Acredito que essas duas modalidades de pensar, comentar e veicular a literatura não necessariamente são excludentes ou substitutivas. As mídias sociais em seus diferentes formatos (vídeos, podcasts, substacks etc.) proporcionam um alcance bastante ampliado e que permite que muitas pessoas interessadas entrem em contato com a literatura por diferentes vias. Mais do que isso: apontam para diferentes jeitos de usufruir e se apropriar da literatura.

Já o jornalismo literário e a produção acadêmica conseguem se deter sobre algumas questões com um fôlego um pouco maior e ainda movimentam e pautam alguns debates. Meu grande desejo é que, com a riqueza e variedade de produções literárias – a literatura como um campo infinito de possibilidades –, também a crítica faça um trabalho constante de atualização, ampliação e reelaboração dos seus parâmetros conforme o tempo se transforma, compreendendo-a de maneira plural e menos prescritiva e excludente.

FF: Sim, ainda tem. Há algo de validação de credibilidade que a crítica tradicional dá que as redes sociais não conseguiram ainda ocupar este espaço. Algo, inclusive, que pega carona na imprensa impressa. O que sai, por exemplo, no jornal é diferente do que está publicado no online. O leitor que vê uma resenha na Folha de São Paulo, n’O Globo, na Quatro Cinco Um, verá a crítica de uma forma distinta do que aquela publicada em veículos exclusivamente online. Há estudos que demonstram isso, não é apenas opinião. No entanto, para mim, se penso nessa dialética proposta, a crítica literária tradicional ainda tem importância, sobretudo no registro histórico e acadêmico, na criação de um repertório que sustenta a ideia de cânone e memória literária, o que é fundamental para dar densidade ao debate e para que os livros não desapareçam no imediatismo. 

No entanto, na formação imediata de leitores, o peso já se deslocou de lugar, pois hoje quem decide o que circula mais rápido são as redes sociais, os clubes de leitura virtuais, os podcasts, os vídeos curtos que tornam a literatura parte da conversa cotidiana. Na prática, são instâncias diferentes, pois a crítica mantém o olhar de longo prazo e as redes ocupam o lugar do impacto, da recomendação, da urgência. Eu diria que, em vez de substituição, há uma convivência. Para um autor, é impossível ignorar o poder de mobilização das redes, mas também é impossível abrir mão da crítica que lê o livro como obra, e não como produto de algoritmo.

DG: O que você está lendo agora e qual livro não sai da sua cabeceira, aquele para o qual você sempre volta?

CR: Atualmente estou lendo ‘Um defeito de cor’, da Ana Maria Gonçalves. Sempre fui um grande fã de “catataus”, esses livros imensos com os quais a gente pode conviver por um longo tempo. Comecei recentemente, mas estou extremamente capturado pela escrita dela. Agora, um livro do qual eu não desgrudo e a que vira e mexe estou voltando é ‘Os detetives selvagens’, do [Roberto] Bolaño. A obra dele toda me hipnotiza, mas esse é especial. São mais de 50 narradores falando de si, dos seus desejos, fracassos ou de coisas aparentemente banais. Essas vozes têm um poder sobre mim gigantesco. Às vezes é um detalhe mais banal, mas que me comove bastante. Quando leio esse livro me sinto mais perto da vida.

FF: Estou lendo ‘Nostalgia’, do Mircea Cărtărescu. Não saem da minha cabeceira toda a obra de Raduan Nassar, em especial ‘Lavoura Arcaica’, os diários de Sylvia Plath, ‘Grande Sertão: Veredas’, de João Guimarães Rosa, tudo o que Clarice Lispector fez na vida, Adélia Prado e Cora Coralina. Minha cabeceira é grande, eu durmo pouco, mas sonho bem.

***

Caetano Romão nasceu em Ribeirão Preto, São Paulo. Desde 2015 mora em São Paulo. Formou-se em Música Popular (acordeão) pela Escola de Música do Estado de São Paulo, e também em Letras pela Universidade de São Paulo. Publicou, em 2021, o livro de poemas ‘Um nome inteiro disposto à montaria’ (Editora 7Letras), que foi semifinalista do Prêmio Oceanos. Suas obras exploram conexões entre poesia, música, performance e a linguagem da cultura popular. Escrevo seu nome no arroz’ é seu primeiro romance.

Fellipe Fernandes F. Cardoso nasceu em Goianésia, Goiás. Formou-se em jornalismo pela Universidade Federal de Goiás (2005), com especializações em cinema, escrita criativa e gestão de recursos humanos. Escreve porque acredita na literatura e nas “vozes de sua cabeça”, como diz. Seu primeiro romance, ‘Sem mim não há dia’, foi semifinalista do Prêmio Oceanos em 2024. ‘Uma tragédia latino-sertaneja’ é seu segundo livro.

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Diego Gregório é jornalista, assessor de imprensa e consultor criativo com quase duas décadas de atuação em comunicação. Acumula experiências em instituições como o Governo do Estado do Ceará, Shopping Iguatemi e organizações do terceiro setor, além de ter atendido dezenas de marcas locais, nacionais e internacionais. Já trabalhou com personalidades de moda como Kadu Dantas e Alex Taleb, e assinou a comunicação de eventos com público superior a 1 milhão de pessoas. Na moda, destaca-se como influenciador por sua abordagem autêntica, adaptando tendências ao seu estilo pessoal. Já realizou parcerias com marcas como Converse, Levi’s e Calvin Klein. Também se dedica à cultura, é editor do blog Homem ETC e autor de dois livros publicados – ‘Coisas que você mesmo poderia ter dito’ e ‘Poemas de partida e de chegada’.

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