Muita gente já sabe: comida e saúde estão diretamente ligadas. O acesso a uma alimentação equilibrada e de qualidade – com insumos frescos, variados e preparados corretamente – é fundamental na manutenção da qualidade de vida. Menos divulgada, porém, é a relação daquilo que escolhemos comer com nossa saúde mental.

A chave-mestra dessa complexa interação está nos chamados neurotransmissores, substâncias fabricadas todos os dias pelo corpo humano e responsáveis por diversas funções biológicas – algumas delas, atenção, ligadas à regulação do humor. A ação dessas substâncias é constante, e quando acontece algum desequilíbrio o organismo pode responder com insônia, tristeza excessiva, apatia, falta de apetite ou ganho de peso, entre outros sintomas.

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Dopamina, serotonina, endorfina e ocitocina, por exemplo, são nomes comuns de se encontrar em notícias e conversas sobre saúde mental – é o chamado “quarteto da felicidade”, por atuar diretamente na promoção de sensações de prazer, euforia e bem-estar.

Para isso, no entanto, a fabricação e a transmissão dessas substâncias devem ocorrer sem problemas. E é aí que os alimentos podem oferecer uma baita ajuda, trazendo componentes químicos que ajudam nesse processo.

“Sabemos, por exemplo, que doenças como a depressão podem estar relacionadas a uma redução nos níveis de neurotransmissores monoaminérgicos, como a serotonina, a dopamina e a noradrenalina, mas também com uma série de fatores ambientais que influenciam diretamente no quadro do paciente, entre eles a alimentação”, explica a nutricionista do Serviço Social do Comércio Unidade Fortaleza (Sesc), Thayse Guilherme.

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Para a profissional, muitos aspectos do atual estilo de vida ocidental favorecem a manutenção de uma má alimentação, entre eles a predominância no mercado de produtos alimentícios altamente processados. “São produtos com excesso de sal, açúcares e gorduras de baixa qualidade, repletos de aditivos e conservantes, que favorecem o desenvolvimento de inflamações, obesidade, stress oxidativo – problemas que, por sua vez, podem contribuir para o surgimento ou agravar quadros de depressão“, detalha.

A química da comida

Nesse cenário, a contribuição da ciência da nutrição tem sido fundamental, ao investigar de que maneira alimentos de verdade – aqueles em seu estado natural ou próximo dele, diferente de produtos industrializados – interagem no corpo humano e podem melhorar nossa qualidade de vida.

“Sabe-se, por exemplo, que o triptofano é um aminoácido responsável pela biossíntese de proteínas, mas também é importante como precursor da serotonina. Assim, está certo buscar alimentos que são fonte de triptofano – como a banana, o cacau, a aveia –, mas não podemos olhar apenas para esse nutriente, pois o processo da serotonina envolve outros neurotransmissores. O próprio triptofano depende de outros cofatores para chegar ao seu local de destino e ter sua ação por completo na célula”, esclarece.

“O cobre, por exemplo, é um dos nutrientes fundamentais para os processos de metabolização do triptofano no organismo. Da mesma forma, muitos outros são importantes, como ferro, zinco, magnésio, selênio, ômega três, ácido fólico, vitamina D, vitamina C. Nutrientes fazem parte de uma teia metabólica, apenas juntos vão ter uma ação de sinergia e proporcionar benefícios como a melhora dos níveis dos neurotransmissores”, completa Thayse.

Dicas

A partir dessa compreensão, a nutricionista reforça a necessidade do equilíbrio quando o assunto é comer. “Trocando em miúdos, ter uma alimentação rica em frutas, legumes e verduras, a mais colorida e variada possível, e de preferência com alimentos orgânicos”, resume.

Ela cita as cores como um bom guia para garantir a variedade. “Temos os alimentos verde-escuros como brócolis, couve-manteiga; os arroxeados, como berinjela, beterraba; os alaranjados, como cenoura, mamão, manga”, menciona.

“Podemos fazer também bastante uso de especiarias e temperos: ervas finas, cúrcuma, açafrão, canela. Toda essa variedade é mais interessante do que apenas uma suplementação individualizada de determinados nutrientes. E, claro, tudo aliado à uma boa hidratação: lembre-se de beber água”, pontua.

Por fim, Thayse destaca outro cuidado importante. “Evite dietas da moda, elas podem não ser apropriadas ou até piorar seu quadro. Apenas um nutricionista, de acordo com as especificidades do paciente, pode prescrever a dieta mais adequada para cada situação”. E vale lembrar: sempre busque ajuda de um médico ou psicólogo caso sinta necessidade.