16 abr 2026 | Living

Como arquiteta, tenho observado uma mudança silenciosa e, ao mesmo tempo, profundamente impactante na forma como vivemos a arquitetura hoje. Nunca tivemos tantos recursos, tantas ferramentas de visualização, tantas possibilidades de antecipar o futuro. E, ainda assim, parece que estamos cada vez menos dispostos a vivê-lo no seu tempo.
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A velocidade da vida contemporânea trouxe consigo uma ansiedade que atravessa também o processo criativo. O projeto, que antes era percurso, descoberta, construção sensível, passa a ser tratado como um destino já conhecido. As imagens em 3D, que deveriam ser instrumentos de comunicação e encantamento, tornaram-se referências rígidas, quase uma promessa de fidelidade absoluta àquilo que ainda nem existe.
E há um ponto ainda mais delicado. Esses mesmos recursos — com trilhas sonoras envolventes, movimentos de câmera, luzes perfeitas — encantam, seduzem, emocionam… Mas também podem desviar o olhar do que realmente importa. A experiência estética da apresentação, muitas vezes, se sobrepõe à essência do projeto. E, nesse processo, corre-se o risco de aprovar uma imagem antes de compreender a arquitetura.
Porque boa arquitetura não se resume ao que é bonito em um frame. Ela está na proporção, na implantação, na relação com o entorno, na qualidade dos espaços, na forma como a luz atravessa o ambiente ao longo do dia, na maneira como aquele lugar será vivido. E isso nem sempre é capturado, ou sequer questionado, quando o foco está apenas no impacto visual imediato.
Com isso, perde-se algo essencial: o espaço do imprevisto. A margem para o erro, para o ajuste, para o encontro inesperado de materiais, luzes e sensações — é justamente nesse território que a arquitetura ganha alma. Quando tudo precisa ser previsto, controlado e validado antes de existir, a experiência deixa de ser viva e passa a ser apenas uma reprodução.
Antes, havia um certo mistério. O cliente não sabia exatamente como sua casa iria se revelar, e o dia da entrega era carregado de emoção genuína, um momento de descoberta, quase um rito de passagem. Hoje, esse instante tem sido substituído por uma comparação: o real confrontado com a imagem antecipada. Não é mais surpresa, é conferência.
Talvez o desafio contemporâneo da arquitetura não seja apenas projetar espaços, mas também resgatar a confiança no processo. Reeducar o olhar — nosso e dos clientes — para que a imagem não seja o fim, mas apenas um meio. E para que a pergunta principal volte a ser: isso é, de fato, uma boa arquitetura?
Porque, no fundo, arquitetura não é sobre prever tudo. É sobre criar as condições para que a vida aconteça, inclusive naquilo que não se pode antecipar.
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Brenda Rolim é formada em arquitetura e urbanismo pela Universidade Federal do Ceará, especialista em visual merchandising e retail design pelo Instituto Europeu de Design. Atual presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Ceará, arquiteta apaixonada por design e se destaca por sua abordagem inovadora e consciente evidente em seus projetos. Acredita que a arquitetura deve refletir o espírito do tempo e a identidade dos seus usuários, promovendo bem-estar e conforto. Além de seu trabalho em projetos residenciais, hoteleiros e comerciais, também se envolve em iniciativas comunitárias, buscando sempre contribuir para um ambiente urbano mais agradável, acessível e justo.