25 set 2026 | Poder

No dia 1º dia de setembro deste ano, a advogada Luciana Madruga assumiu o cargo de desembargadora eleitoral, na classe jurista, no Pleno do Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE), sendo a terceira mulher em 90 anos da Corte Eleitoral cearense a ocupar a vaga de juíza titular.
Com 24 anos de carreira, Luciana é conhecida pelo perfil de alta gestão e excelência técnica, tendo dedicado mais de uma década ao magistério superior em Fortaleza. Como desembargadora do TRE-CE, a magistrada encara um novo desafio, para além das próprias adversidades da profissão: continuar o legado de outras mulheres que ajudaram a ampliar a presença feminina no Poder Judiciário.
Em entrevista exclusiva à Plataforma MT, Luciana Madruga abordou o momento histórico do qual fez parte, a equidade de gênero na Corte Eleitoral brasileira e os entraves de equilibrar os papéis de mulher, mãe, esposa e, agora, desembargadora.
LEIA MAIS >> Luciana Madruga assume vaga no TRE-CE e amplia presença feminina na Corte Eleitoral
‘Mutações’: Ana Cristina Mendes e Suzane Farias apresentam diálogos sobre o feminino em nova mostra
Plataforma MT [PMT]: Qual o sentimento de ter sido indicada ao lado de outras mulheres na primeira lista tríplice 100% feminina para a vaga da classe de juristas no TRE-CE – um momento tão histórico para a Corte Eleitoral cearense?
Luciana Madruga [LM]: É uma emoção que ainda estou processando, porque ela é ao mesmo tempo pessoal e coletiva. Pessoalmente, é a realização de uma trajetória de mais de duas décadas de advocacia e magistério. Mas sei que esse momento ultrapassa a minha história individual: […] é um marco para a Corte Eleitoral cearense, e tenho consciência de que isso não aconteceu por acaso. É fruto do trabalho de muitas mulheres que abriram espaço antes de mim, dentro e fora da magistratura. […] Existe algo profundamente especial em saber que representamos, juntas, uma força pela mudança que a Justiça Eleitoral do Ceará ainda não tinha vivido. E é isso que torna esse instante maior do que qualquer conquista individual: ele amplia o horizonte de quem vem depois de nós.
[PMT]: Em um relatório elaborado pelo Conselho Nacional de Justiça em 2019, que avaliou a participação feminina no Poder Judiciário, verificou-se que, em 2018, apenas 38,8% dos magistrados eram mulheres. Sendo a terceira mulher em 90 anos a assumir a vaga de juíza titular no TRE-CE, como você avalia a equidade de gênero no setor?
[LM]: Os números do CNJ confirmam algo que quem está no dia a dia da advocacia e da magistratura já percebe: a presença feminina nos espaços de decisão ainda não reflete a proporção de mulheres que estudam Direito, atuam como advogadas e constroem carreiras sólidas na área jurídica. Ser a terceira mulher em 90 anos a ocupar a cadeira de desembargadora titular no TRE-CE, na classe jurista, é, ao mesmo tempo, motivo de orgulho e um dado que precisa ser encarado com honestidade: mostra que avançamos, mas também que o caminho ainda é longo. Não acredito que ser mulher confira, por si só, alguma competência especial para julgar. O preparo, o estudo e a responsabilidade são o que efetivamente qualificam alguém para a função. Mas não posso ignorar o percurso histórico que as mulheres tiveram que trilhar até chegar aos espaços de decisão da sociedade brasileira. Por isso considero que a representatividade importa: cada mulher que ocupa um desses lugares amplia a possibilidade de que outras também o façam, e isso é bom para a Justiça Eleitoral e para a democracia como um todo.

[PMT]: Quais os desafios (profissionais e pessoais) de ser uma mulher nesse cargo, especialmente cercada por uma maioria masculina?
[LM]: Os desafios existem em duas frentes que conversam entre si. No campo profissional, é preciso, muitas vezes, conquistar duas vezes a mesma credibilidade que um homem conquista uma só – provar competência, sustentar posições com solidez redobrada, ocupar espaço em ambientes historicamente construídos por e para homens. […] No campo pessoal, o desafio mais real é a conciliação: equilibrar a carreira com a vida familiar, com a maternidade, com o casamento, sabendo que o tempo dedicado a um espaço muitas vezes significa uma ausência em outro. Aprendi a lidar com isso reconhecendo as ausências que a profissão por vezes impõe, mas também valorizando com muita intenção a qualidade do tempo que consigo dedicar à minha família.
[PMT]: Você possui mais de duas décadas de atuação. De que forma a sua experiência prévia deverá se refletir no seu mandato?
[LM]: Minha trajetória se construiu no trânsito constante entre a advocacia e o magistério, e cada uma dessas atividades me ensinou algo que hoje considero essencial para a função de julgar. A advocacia me ensinou a defender, a construir teses, a sustentar posições com responsabilidade. O magistério me ensinou que o conhecimento nunca está concluído. Que ensinar exige revisitar constantemente aquilo que acreditamos saber, ouvir perguntas e reconhecer que nem sempre existe uma resposta pronta. Foi nesse trânsito entre prática e conhecimento que aprendi, talvez, a lição mais importante: nenhuma convicção jurídica deve ser tão confortável a ponto de dispensar o contraditório. Como magistrada, esse aprendizado ganha uma dimensão ainda maior, porque o exercício agora é outro. Preciso receber os argumentos com isonomia, examinar as provas, compreender as diferentes posições e, com base na Constituição e na lei, formar uma convicção fundamentada.

[PMT]: Desempenhar essa função, sendo mulher, é equilibrar vários pratos, certo? Ainda mais com um cônjuge e filhos. Como você pretende conciliar/vem conciliando o papel de esposa, mãe e profissional com a sua vida pessoal?
[LM]: É verdade que equilibrar tantos papéis é uma tarefa constante, e seria desonesto dizer que existe uma fórmula perfeita para isso. O que aprendi, ao longo dos anos, é que essa conciliação não é um exercício solitário. Ela só é possível porque construí, junto ao meu marido Samuel, uma parceria genuína, em que dividimos responsabilidades e nos apoiamos mutuamente nos momentos mais exigentes da carreira de cada um. […] Tenho a sorte de contar também com uma equipe, no meu escritório, que sempre entendeu esse movimento entre a vida profissional e a vida pessoal – isso também faz parte da conciliação, ainda que nem sempre apareça.
[PMT]: Como os seus filhos e o seu marido têm te apoiado nesse processo de assumir o mandato? Qual a importância de tê-los como rede de apoio?
[LM]: Esse apoio foi, sem exagero, um dos pilares que tornaram esse momento possível. O meu marido Samuel conhece essa trajetória de um lugar que poucas pessoas conhecem, os desafios que não aparecem em currículo nenhum, os momentos de dúvida, as decisões difíceis, tudo o que precisa ser conciliado para que uma carreira exista ao lado de uma vida em família. Ter alguém ao lado que compreende isso, que participa como parceiro e não apenas como espectador, faz toda a diferença. Meus filhos, Letícia e Samuel, vivem essa trajetória de outra forma, mas igualmente essencial. Eles são parte de tudo o que sou, e é para eles, concretamente, que penso no tipo de mundo que quero construir com meu trabalho — mais justo, mais igualitário. Ter uma rede de apoio como essa importa porque nenhuma conquista profissional se sustenta de forma isolada.

[PMT]: O que você diria para a Luciana em início de carreira, prestes a percorrer caminhos que a levariam até onde está hoje?
[LM]: Diria a ela para confiar no processo mesmo quando o caminho não parecer claro — que as escolhas que parecem pequenas no início, como a dedicação aos estudos, a disciplina no trabalho e a abertura para aprender com cada experiência, são exatamente aquelas que constroem uma trajetória sólida no longo prazo. Diria também para não ter medo de ocupar espaço e de sustentar suas posições com preparo e responsabilidade, mesmo em ambientes onde poucas mulheres estavam presentes. E diria, sobretudo, para valorizar as pessoas que abrem portas para nós — professores, colegas, mentores — porque um dia também será sua vez de abrir portas para outras pessoas. Se pudesse resumir em uma frase, diria: continue construindo com consistência, porque você não imagina o quanto esse caminho, ainda que cheio de incertezas, vai valer a pena.