logo

Artistas cearenses partilham experiências e redescobertas durante o isolamento

Por Redação
Artistas cearenses partilham experiências e redescobertas durante o isolamento
A arte de Beatriz Soares e Andre Nódoa ganha novo significado durante o isolamento social (Foto: Divulgação)

A tinta nas mãos de Beatriz Soares e Andre Nódoa ganha novo significado durante o isolamento social. Por meio das telas e outras expressões artísticas, os jovens cearenses compartilham suas inspirações, alegrias e saudades. O Site MT conversou com eles sobre as adaptações e redescobertas de suas potências criativas neste período.

Além disso, os artistas visuais disponibilizaram, com exclusividade, ilustrações para que os leitores façam download e tenham um pouco dessa experiência de criação ao colorir as peças.

LEIA MAIS >> ‘Minuto do Bem’: campanha reúne mensagens de fé e esperança de amigos de Márcia Travessoni

Por que as pessoas estão mudando o cabelo durante a quarentena

Refúgio nas aquarelas

Com sede de mundo e personalidade doce, Beatriz Soares nunca escondeu a paixão pelo desenho e sempre foi incentivada pela família. A estudante de Design Moda pela Universidade Federal do Ceará vem conquistando espaço no cenário artístico cearense com suas obras e ideias. No isolamento social, a arte tornou-se uma âncora pacificadora para ela.

“A arte é um refúgio ainda mais importante para mim neste distanciamento social. Não é fácil lidar com tantas notícias fortes, que acabam nos abalando emocionalmente. Acho que pude sim me aproximar de outras versões de mim mesma e, sobretudo, descobrir um valor ainda maior em outros profissionais como os da saúde, cientistas, psicólogos, e tantos outros que estão na linha de frente”, afirma.

Beatriz Soares (Foto: Divulgação)

Segundo Beatriz, o período também impactou sua expressão artística e sensibilidade. “Acho que o meu processo criativo se moldou naturalmente ao que venho refletido e vivido. Acredito que seja importante tentar entender a gravidade da situação e também ajudar como pudermos, o que inclui a busca de meios que facilitem atravessarmos de forma mais leve, na medida do possível”.

“Durante o isolamento, tive momentos de introspeção e reflexão, que acabam refletidos no meu trabalho”, diz Beatriz Soares.

Atualmente em mobilidade acadêmica na Faculdade de Belas Artes de Granada, na Espanha, Beatriz busca aliar suas pesquisas com a vontade de criar. “Estou com algumas ideias que disponibilizo nas redes sociais. Nos últimos dias divulguei uma série de fotografias que faziam releituras de quadros de grande prestígio na história da arte. Também criei o projeto “Ficar sem AR TE sufoca”, que aborda por meio de ilustrações e recursos visuais, como a arte possui funções terapêuticas, capazes de nos ajudar nos nossos dilemas mais íntimos”, diz.

Desafiando-se em diferentes expressões da arte, a cearense acolhe as transformações de seu trabalho e já lança um olhar para o futuro. “Numa análise retrospectiva mais adiante, talvez o trabalho deste momento seja ainda mais marcado por tudo que traz uma pandemia. Ou seja, a arte traz a técnica, mas também o ambiente. Espero e trabalho para que ela consiga trazer beleza e alívio para este momento tão raro”, afirma.

Inspirada por artistas cearenses, Beatriz utiliza elementos regionais aliados aos seus traços. “Acho que é importante eu pincelar mais a cearensidade. Esta mistura da arte local com aquela que se vê fora possui, a meu ver, uma beleza incomparável e um enorme potencial de comunicação”, comenta.

As cores fortes e vibrantes também são uma referência das peças feitas pela jovem talentosa. “Inspira-me conhecer obras e mulheres a frente do tempo, como Frida Kahlo, Iris Apfel, Judy Chicago, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Yayoi Kusama, entre outras. Todas possuem traços únicos e distintos, mas em comum, são fortes, determinadas e destemidas. Então gosto de manter essa ideia viva no meu trabalho”.

Processo de mudança

Também exemplo de uma nova comunicação, que nasce da adaptação às medidas de isolamento, o artista visual e tatuador cearense Andre Nódoa atravessa um processo de mudança em sua forma de criar. Ele conta que segue produzindo, mas a partir dos materiais que já tinha em casa, como papéis, nanquim, lápis e algumas tintas que sobraram de um outro trabalho.

Andre Nódoa e sua arte em prédio na Praia de Iracema (Foto: Reprodução/Instagram)

“Não posso ir até o ateliê porque meus pais moram no mesmo ambiente e acabaria tendo a possibilidade de contaminação, então estou pintando dentro do meu quarto, que tem um espaço muito reduzido, e com isso a produção ganhou novos limites que não existiam antes, o que abre espaços para descobertas“, conta ao Site MT.

“Penso que não estou produzindo sobre esse período, mas sim sob esse período. Não estou encarando a quarentena como um tema, mas um estado, um momento que estamos dentro dele” diz Andre Nódoa.

O artista, aliás, reforça que está aproveitando o espaço e a fase para fazer experimentações dentro do próprio trabalho. “Estou tentando achar algum segredo escondido nessas circunstâncias que acabem me fazendo pensar melhor sobre o mundo de alguma maneira”.

Nódoa ainda relata que é natural para ele estar muito tempo sem sair, já que sempre teve tendências de auto-recolhimento voluntário, mas a obrigatoriedade de ficar em casa muda tudo. “Uso a solitude com o máximo de frequência possível, não tem como se pensar muito bem sem um certo afastamento das coisas, porém uma coisa é não querer sair, e outra é não poder sair por tempo indeterminado”.

A medida de ‘lockdown’ acaba gerando uma montanha-russa de sentimentos, então ele prefere não se cobrar em produzir da mesma forma como fazia antes. “O mar, a praia, padarias e praças sempre foram pontos de fuga quando eu me achava ansioso. Hoje tudo se resume a minha janela onde por privilégio consigo ver algumas montanhas e serras que estão no entorno da cidade”.

O artista conta sua admiração pelos ensinamentos milenares do Oriente. “Culturas antigas têm montanhas como local de meditação, e todo dia tento aprender um pouco com elas. Assim vou entendendo novas maneiras de lidar com a ansiedade, novas formas de ter mais paciência, todo dia convocando um buda diferente a cada vez que preciso ler os jornais”, diz Andre.

Com inspirações como a cantora e compositora Rossetta Tharpe, o pintor Cézanne, os artistas Njideka Akunyili e Belkis Ayón e o poeta brasileiro Manoel de Barros, o interesse pelas artes foi natural e veio ainda na infância, inspirado pelo pai, que é artista plástico. No decorrer da trajetória, o desenho se tornou uma ferramenta útil para Nódoa.

“Quando tinha a dificuldade de entender algo eu tentava passar para o papel em forma de desenho, isso me ajudava muito pois sempre tive uma memória muito ruim. Sempre falo que o desenho me ajudou a terminar o colégio e faculdade”, relembra.

Desde então, nunca mais parou. Nódoa reforça que redescobriu o mundo por meio dos traços. “O desenho faz com que você tenha um nível de atenção quase sacro, as coisas ganham espaço para pensamento enquanto você vai desenhando, tudo muda”.

Por Jacqueline Nóbrega e Tainã Maciel 

Baixe as ilustrações exclusivas que Andre Nódoa e Beatriz Soares fizeram para o Site MT

Veja também