A cearense Julia Andrade decidiu seguir a carreira de psicóloga após passar por três experiências de vida que considerou especiais: dançar por anos balé, inclusive em Santa Catarina, na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, sua ligação com a literatura e participar de ações sociais durante a infância, por influência dos pais.

Confira entrevista com a profissional na íntegra:

1. Como surgiu a vontade de se tornar psicóloga? O que te encantou na profissão?

É interessante essa pergunta sobre a influência de alguém, pois em minha família não há nenhum psicólogo! No entanto, há três experiências de vida que foram decisivas em minha escolha: A educação dos meus pais, a experiência no universo do balé e o hábito da leitura. Desde pequena dancei balé. Através dessa paixão, aos onze anos fui para Santa Catarina dançar na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, na qual permaneci durante 4 anos. Em seguida, fui para o Rio de Janeiro para integrar a Companhia Brasileira de Ballet. Durante esses 5 anos, dancei com crianças e jovens de diversos estados e países. Percebia que cada pessoa tinha uma educação e cultura diferentes da minha, e essa diversidade me encantava, me deixava curiosa na tentativa de compreender as diferenças no pensar, no comportar-se e nos valores. Creio que a semente do que se tornaria a decisão de cursar Psicologia está nesse momento de minha vida. Outra influência importante foi o fato de meus pais levarem eu e meu irmão para ações de engajamento social desde a tenra idade: visitávamos abrigos, hospitais e institutos de apoio a crianças em vulnerabilidade social. Através dessas experiências fui entrando em contato com diferentes realidades, e o sofrimento dos outros gerava em mim um desejo de envolver-me e ajudar. Por fim, a literatura nos abre para o mundo das possibilidades; a fantasia, os contos, as histórias transmitem verdades sobre o ser humano que me inclinaram ainda mais a buscar um curso que abordasse a vida humana, suas alegrias, sofrimentos e contradições. A psicologia surgiu, então, como um curso onde eu poderia servir, colaborar com a sociedade através do contato pessoal e genuíno, além de sanar essa sede de conhecimento de compreender a vida humana.

Julia Andrade decidiu seguir a profissão depois de sua experiência como bailarina e em projetos sociais Foto: Arquivo pessoal

2. E a ideia do grupo de estudo sobre parentalidade e educação dos filhos? Como nasceu?

Há um tempo oriento pais e mães no setting terapêutico. Percebi não só pelos relatos das famílias que acompanho, mas também pelas pessoas ao meu entorno, os desafios e inseguranças próprias do exercício da paternidade e maternidade. Estamos inseridos em uma cultura de que educar se faz no instinto, de que os papeis de pai e mãe acontecem naturalmente com o nascimento de um filho. Mas a realidade demonstra que isso é um mito. Educar é um dos maiores desafios na vida, formar um ser humano é uma verdadeira missão. Os filhos crescem e a infância é uma etapa decisiva do desenvolvimento humano.

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3. Como funcionam os encontros?

Um dia, de forma súbita, me veio a mente uma percepção: estudamos durante toda nossa vida exercer uma profissão, por que também não podemos estudar e profissionalizar-nos para o exercício de uma parentalidade segura? Foi aí que surgiu a ideia do grupo de estudos em parentalidade e educação de Filhos; um espaço para troca de experiências, aprendizados e amadurecimento. Inicialmente, formei um primeiro grupo somente com pessoas conhecidas. A experiência foi tão positiva que decidi expandir e iniciar outra turma, dessa vez aberta ao público em geral. Nos Estados Unidos há diversos cursos e grupos nesse sentido, e o meu desejo é trazer essa mentalidade para cá também. O grupo reúne-se quinzenalmente, e cada mês discutimos um livro da bibliografia elaborada por mim. No mês de abril, por exemplo, discutiremos o livro “Educar na Curiosidade” de Catherine L’Ecuyer. Os encontros são dirigidos, de forma a aprofundar temáticas relacionadas à infância e adolescência, trazer exemplos da vida real com os filhos e crianças, além de apontar estratégias adequadas para uma educação eficaz. Para educar, precisamos conhecer as crianças. Sem entendê-las, não conseguimos acessá-las e realmente nos conectar com elas. O objetivo do grupo é transmitir conhecimentos de qualidade e orientações práticas para uma educação e parentalidade mais confiante e saudável tanto para os pais como para os filhos. Quem desejar participar, as inscrições são feitas através do contato: (85) 99998.8189 ou e-mail: [email protected]

4. O diferencial do grupo é que vários profissionais fazem parte dele, né? Vi que tem advogada, médica, dentista… me explica o motivo de misturar as profissões!

Verdade! Decidi deixar o grupo aberto para todas as pessoas que se interessassem pela temática. Creio que a diversidade traz riqueza de experiências e perspectivas. Isso torna o grupo mais alegre, dinâmico e divertido. Sabemos que o ser humano é multidimensional, portanto, ter profissionais de diferentes áreas do saber, mães e também estudantes agrega muito ao grupo.

5. Tem algum projeto que gostaria de destacar para 2019?

Sim. Em breve, no primeiro semestre de 2019, estarei lançando um workshop sobre os temperamentos na relação entre pais e filhos. Esse é um conhecimento pouco disseminado em nosso País, e de fundamental importância para uma relação e educação saudável dos filhos. A abordagem e a forma de motivar os filhos varia de acordo com o temperamento que possuem. Não há uma fórmula pronta e padrão para todas as crianças. Ao contrário, há variantes nesse processo e o temperamento é um deles. Entender o temperamento dos pais e dos filhos é uma forma valorosa de construir um vínculo poderoso entre as diferentes gerações.