Márcia Travessoni – Eventos, Lifestyle, Moda, Viagens e mais

Entre em contato conosco!

Anuncie no site

Comercial:

comercial@marciatravessoni.com.br
Telefone: +55 (85) 3242 0333

Redação:

conteudo@marciatravessoni.com.br
conteudo1@marciatravessoni.com.br

Negro Piche propõe peças agênero e valoriza liberdade no vestir

18 abr 2021 | Moda

Por Tainã Maciel

Em 2017, Iury Aldenhoff criou a marca de roupas Negro Piche que une ancestralidade e moda agênero (Foto: Matheus Dias – @mdiaspretoo)

Os acasos da vida podem transportar uma pessoa para lugares inimagináveis. Afinal, as surpresas chegam muitas vezes para dar um toque de frescor a monotonia da rotina. Foi por meio de uma peça pregada pelo destino que o bacharel em Gastronomia Iury Aldenhoff fundou uma marca de roupas do zero – aliás, com R$ 80 no bolso -, somados ao apoio da família e a criatividade de um ariano com ascendente em Câncer. Batizada de Negro Piche, a brand une ancestralidade e a liberdade de simplesmente ser. 

LEIA MAIS >> Coletivo BATEKOO é escolhido por Beyoncé para estrelar campanha da Adidas e Ivy Park

Quem é a carioca que inspirou a grade GG da Farm

Para entender a história, é preciso voltar até 2017, quando Iury acompanhava o namorado, o ator Edivaldo Batista, em eventos culturais de Fortaleza. Após a produção de uma peça teatral, que contou com a participação de Edivaldo, algumas sobras do figurino foram parar nas mãos de Iury. “Decidi fazer uma camisa com alguns retalhos e comecei a usar. Os amigos mais próximos elogiaram a peça e respondi, na brincadeira, que estava vendendo. Começaram a perguntar quanto era e percebi que existia, talvez, um mercado ali”, lembra. 

Filho de costureira, Iury começou a vislumbrar a possibilidade de criar um pequeno negócio por meio dos tecidos e se uniu ao namorado para produzir algumas peças. “Soubemos que ia ter um espetáculo infantil e fizemos umas camisas infantis para vender no hall do Teatro do Dragão, sem pretensão. As crianças não gostaram muito (risos), mas os pais adoraram. No final de semana seguinte, fizemos camisas para adultos e vendemos praticamente tudo. Tinha muita gente circulando por lá, era época de Maloca Dragão”, conta. 

A Negro Piche valoriza o empoderamento negro (Foto: Matheus Dias)

A marca foi tomando forma, mas os perrengues não faltaram no início do negócio. Hoje, Iury lembra com bom humor. “A nossa primeira logomarca foi feita em uma gráfica rápida do Centro. Começamos sem grana, com apenas R$ 80: metade de um e metade do outro. Depois disso, não foi preciso colocar nada do nosso bolso. O que entrava, a gente vendia as camisas, comprava o tecido e pagava a costureira”.

Em seis meses, o casal aumentou a clientela, iniciou os atendimentos por encomenda e se aventurou com vendas pelas feiras da cidade. “Começamos a ser convidados pelos amigos que tinham sede de grupos de teatro, como o pessoal dos grupos Pavilhão da Magnólia e Comedores de Abacaxi, e fomos expor nesses locais”. Tamanha foi a proporção da demanda na época que Edivaldo, sócio do Iury, se afastou da empresa que ainda passava por uma fase gestacional. “Não era o que ele queria, mas eu queria muito continuar”, diz. 

“Comecei a entender aquilo como um processo de retorno ancestral. Minha mãe costura desde muito cedo, acho que desde os 15 anos, e minha tia é modelista. Vivi a minha infância em cima das máquinas de costura, acompanhando tudo, mas sem participar. Talvez por rejeitar aquilo. Quando a marca foi dando certo, senti que era um retorno ancestral de alguma forma”. 

Identidade 

A cada passo, a marca herdava cada vez mais os traços da personalidade de Iury e o jovem de 25 anos seguiu absorvendo todo o aprendizado da experiência. O nome da empresa, a propósito, está relacionado às vivências dele. “Depois de um mês vendendo as camisas, decidimos pensar em um nome. A gente sentou no chão da sala, tomamos umas cervejas e escutamos música. Comecei a falar sobre a minha infância, como era ser uma criança negra em uma escola particular da periferia, apelidos e questões de bullying e racismo. Naquela época, eu não entendia dessa forma ou talvez eu não conseguia perceber o quanto isso era grave. Rememorando isso, chegamos ao nome Negro Piche”, afirma. 

Registros da coleção Kinijé (Foto: Matheus Dias )

Após a saída de Edivaldo Batista da pequena empresa, Iury tomou a decisão de se dedicar integralmente a marca. “De alguma forma, a gastronomia me somava um tempo ainda e decidi me afastar. Convidei minha mãe [Ionete Rodrigues] para entrar comigo. Na verdade, foi bem natural. A gente só fazia camisa de botões e um dia ela disse ‘vou fazer uma saia envelope e se vender você me dá o dinheiro’. Era bem informal mesmo”.

Hoje, a Negro Piche é liderada por mãe e filho, que agregaram boa parte da família ao negócio, e consolida-se como uma marca feita por pessoas pretas. Segundo Iury, a brand também possui um posicionamento político e social bem definido. “A Negro Piche tem um comprometimento com as pessoas negras, com a vida negra, com o empoderamento negro e com a valorização de todos os corpos”, comenta.

“Não é que a gente queira atingir apenas o público negro, a questão não é essa. Para gente, é importante que esses corpos que foram desvalorizados durante muito tempo, que não estiveram em campanhas publicitárias, ocupem esse espaço, independente se é um corpo magro ou gordo, por exemplo. É importante que todos esses corpos estejam em evidência”,

afirma Iury Aldenhoff.

Moda tem gênero?

Quem dita o que é roupa de menino e de menina? A moda agênero é outra bandeira levantada pela Negro Piche. “Muitas marcas acreditam que o agênero é fazer um modelo reto, que não seja feito diretamente para um corpo masculino ou feminino. Pra mim, o conceito de agênero, na verdade, nem deveria existir porque a roupa não sente o gênero. É uma opinião pessoal. Se uma mulher chega e diz ‘quero uma camisa’, vou mostrar todas as camisas que tiverem disponíveis, não só peças que têm o que é considerado um corte feminino. A pessoa deve vestir o que ela quiser“, afirma.

A Negro Piche preza pelo conforto, leveza e liberdade no vestir (Foto: Matheus Dias)

Assim, peças despojadas, leves e coloridas são produzidas pela marca e o que começou com camisas, agora aposta também em saias, vestidos, calças, entre outras roupas. As modelagens ficam por conta da tia de Iury, Janete Rodrigues, e as estampas são criadas pelo artista cearense, Matheus Dias, que também fotografa as coleções. Tanto na criação das modelagens, como na elaboração das estampas, os colaboradores são orientados por inspirações de Iury e Ionete. “Sempre mando áudios com coisas que vêm na minha cabeça”, explica o empresário.

Ionete Rodrigues, que comanda a Negro Piche ao lado do filho, é costureira há cerca de 35 anos (Foto: Divulgação)

As peças confeccionadas em viscose, abrangem quase 90% das coleções da marca, que também trabalha com linho. Tudo é produzido em Fortaleza e parte do processo acontece no bairro Floresta, onde está localizada a casa de Ionete Rodrigues. “Temos uma mesa de corte, algumas máquinas e o estoque lá. Tudo funciona lá e trabalhamos com as costureiras do bairro. Lembro que cortamos as primeiras peças no chão. Hoje temos os equipamentos”.

Atualmente, a Negro Piche possui loja física na Rua dos Tabajaras, inaugurada em julho de 2019. “Abrir a loja, logo na Rua dos Tabajaras, foi emocionante. É extremamente importante que pessoas negras ocupem outros espaços, para além da periferia”. Os clientes também podem adquirir as peças na Elabore do Shopping Riomar e na Endossa, da Fradique Coutinho, em São Paulo. As vendas também acontecem de forma online, para todo o Brasil.

Publicidade

VEJA TAMBÉM

Publicidade

PUBLICIDADE