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Adoção tardia: mães falam sobre o tabu de adotar crianças com mais de três anos

25 maio 2021 | Notícias

Por Redação

Eliane Oliveira, presidente da Acalanto Fortaleza, adotou a filha Raíssa quando ela tinha quatro anos (Foto: Marília Camelo)

Quando nasce uma mãe? Para Helionete Gouveia, de 33 anos, a maternidade fez morada no momento em que ela olhou nos olhos da filha Maria Eduarda pela primeira vez, em outubro de 2017. Na época, Duda tinha 10 anos. “Meu coração acelerou muito rápido. Não tem explicação. Foi como se eu tivesse parido naquele momento”, lembra. No Dia Nacional da Adoção, celebrado nesta terça-feira (25), confira relatos de duas mães que optaram pela adoção tardia, ou seja, fizeram a escolha de adotar crianças maiores de três anos. 

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Documentário acompanha histórias de pretendentes à adoção no Ceará

O desejo de ser mãe sempre existiu em Helionete, mas devido a problemas hormonais esse sonho teve que ser adiado. Com o apoio do esposo Francisco Oliveira, ela decidiu partir para adoção e, nesse processo, acolher mais de uma criança. “Entramos para a fila em junho de 2017 com o perfil de 0 a 6 anos e com a possibilidade de adotarmos dois irmãos”, explica.

Ao contrário de alguns pretendentes que optam por bebês, ela estava disposta a adotar crianças com mais idade. “Sabia que a partir do momento que eu me tornasse mãe, tudo poderia ser transformado. Mesmo se essas crianças já tivessem vivido a primeira infância”, conta. Após passar pelas primeiras etapas do processo, como entrega da documentação e a participação de cursos preparatórios, o casal aguardou poucos meses para aumentar a família. Em fevereiro de 2018, Maria Eduarda, de 10 anos, e o irmão, João Vitor, de 7 anos, foram adotados por eles.

Helionete Gouveia e Francisco Oliveira adotaram os irmãos Eduarda e João em 2018 (Foto: Arquivo Pessoal)

“Chamo Maria Eduarda de borboleta, porque desde que ela chegou aqui ela floresce, e o João Vitor é o hiperativo da família. Já passamos por períodos muito difíceis e sempre busco mostrar que eles são fortes. Por exemplo, se precisar ficar de castigo, vão ficar. A gente vai vivendo e se adaptando uns aos outros. No final das contas, não é a gente que adota, eles que nos adotam a cada dia. Aprendemos muito com eles, a cada olhar, a cada expressão e acredito que existem várias formas de amar”,

comenta Helionete.

Superar desafios

Assim como Helionete e Francisco, a pedagoga Eliane Carlos de Oliveira também adotou uma criança com mais idade: a pequena Raíssa que, na época, tinha 4 anos. A experiência conduziu Eliane – ou Lilica como é conhecida – à presidência da Acalanto Fortaleza, grupo de apoio à adoção que atua desde 2013 em Fortaleza. Segundo ela, à medida que a idade da criança aumenta, as chances dela ser adotada diminuem. “A idade crítica é a partir de sete anos. Porém, quando você chega aos 11 anos, na adolescência, atinge o topo da dificuldade”.

Eliane partilha alguns desafios e alegrias da adoção (Foto: Marília Camelo)

Eliane revela algumas dúvidas de quem decide adotar crianças dessa faixa etária. Por parte dos adotantes, em geral, existe a insegurança em relação ao desconhecimento da história pregressa da criança, tanto do ponto de vista emocional quanto do ponto de vista físico, como fatores hereditários.

“O que esses pais querem? As primeiras vezes dessas crianças. Certa vez, uma pessoa que adotou um menino de 13 anos filmou ele todo emocionado entrando pela primeira vez em um shopping e subindo as escadas rolantes. Eles têm tantas primeiras vezes que vocês nem imaginam. Minha filha tem lesão cerebral, ou seja, ela tem compreensão cognitiva menor, mas ela demorou muito tempo para saber nome de legumes e frutas, porque ela nunca tinha visto eles com casca”, conta Eliane.

Em relação aos desafios enfrentados na adoção tardia, Eliane ainda aponta que a maturidade dos pretendentes é um fator decisivo no período de adaptação. “Você tem que se colocar no lugar dessa criança ou adolescente. Ser capaz de entender que ele tem uma história prévia e que vai ter uma resposta mediante a experiência que ele passou. Quando a criança vai para casa do pretendente, ela vai levar muitas barreiras que construiu para se proteger. Cabe ao pretendente ter sido bem preparado para ter maturidade diante das situações”.

A Acalanto Fortaleza é um Grupo de Apoio à Adoção (GAA) (Foto: Marília Camelo)

“No período de adaptação, a criança pode adquirir um comportamento provocativo por dois motivos. Primeiro, porque eles querem voltar para zona de conforto, por pior que seja. Outro, porque eles querem testar se aquele afeto que está vendo do pretendente é verdadeiro”

afirma Eliane Carlos.

No Brasil, ao todo, 4.951 crianças aguardam uma nova família. Destas, apenas 667 têm até três anos, ou seja, ainda são bebês. Os dados são do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), do Conselho Nacional de Justiça. Segundo Eliane Carlos, a burocracia e a falta de informação ainda são fatores que prejudicam a rapidez do processo.

“Geralmente, as crianças chegam bebês nas instituições. Em teoria, elas deveriam ser prontamente adotadas, mas a gente vê que a criança entra pequenininha nessa janela e permanece até ficar maior. Felizmente, no Ceará, temos um grande diferencial, porque pensando nisso, foi criado o projeto Anjos da Adoção e por meio dele conseguimos caminhar a fila das crianças de zero a três anos muito mais rápido que em outros estados”, explica.

Iniciativa do Ministério Público do Estado do Ceará, o projeto Anjos da Adoção fornece uma alternativa legal às mulheres (grávidas ou não) que não querem prosseguir com a maternidade. Desde 2016, o projeto ajuda não só mulheres que não desejam ser mães, como também pessoas que optam por adotar, contribuindo para a diminuição do tempo de espera para adoção em Fortaleza.

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