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Além da Edição: o papel da economia criativa na retomada, por Cláudia Leitão

Por Itallo Rocha
Além da Edição: o papel da economia criativa na retomada, por Cláudia Leitão
Diretora do Observatório de Fortaleza propõe um redesenho nos modelos de negócio, principalmente no turismo, que deve incentivar a economia criativa. (Foto: Marília Camelo)

O turismo brasileiro, assim como muitos outros setores, foi afetado com a pandemia, que ocasionou impactos negativos para a cultura de estados e municípios. Redesenhar os modelos de negócio e incentivar a economia criativa, bem como o turismo de nicho e de experiência, são ideias que precisam ser trabalhadas pelos governos na retomada, conforme a diretora do Observatório de Fortaleza (Governança Municipal e Políticas Públicas) do Instituto de Planejamento de Fortaleza (Iplanfor), Cláudia Leitão.

Entrevistada na última edição da revista Gente por Márcia Travessoni, ocasião em que definiu a economia criativa como “economia da cultura para os informais, os pequenos empreendedores, os microempreendedores”, Cláudia Leitão expõe, agora, o papel dessa organização na retomada econômica em meio à crise sanitária.

De acordo a especialista, a cultura já sofria desvalorização antes pandemia do novo coronavírus, contudo a situação foi agravada quando os trabalhadores se viram impossibilitados de seguir em frente, tendo que recorrerem a lives (transmissões ao vivo feitas na internet) e a editais, que, em sua maioria, não contemplam os artistas da periferia, que se vivem em um contexto dramático.

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“Um edital é só um instrumento no meio de uma política pública que tem que ser muito maior. Não o endeuso, porque acho que ele atinge um pequeno grupo. São necessários, mas não são suficientes. Precisamos de algo muito maior, e temos que entender que essas pessoas não têm só necessidades sazonais“, defende.

Muitas pessoas, salienta, acreditam que os trabalhadores da cultura são Microempreendedores Individuais (MEI’s), contudo, muito atuam informalmente e nunca tiveram acessos a editais do Estado. Em meio ao cenário atual, ressalta a especialista, a situação para estes profissionais é ainda pior, o que exige mais atenção das pastas responsáveis, que devem se estruturar para ajudá-los.

“A Lei Aldir Blanc exige das secretarias muita gestão, uma busca ativa de espaços e artistas que precisam de apoio. A estrutura delas é precária, não têm recursos humanos, tecnologia, sistemas de informação, estatísticos, economistas, geógrafos, etc. Ninguém entende o potencial gigante que elas têm. Todas deveriam ter observatórios, para fazer indicadores. Somos um país sem dados, ou onde estes são escondidos. É um perigo’, alerta.

Para Cláudia Leitão, é necessário juntar as pessoas, envolver os bairros e trabalhar de forma colaborativa para que a abrangência seja maior. A lógica de grupos, reflete, deve ir da periferia para o Centro, não o contrário, como ocorre hoje em dia.

(Foto: Marília Camelo)

“Isso seria a minha visão em uma época que nem Ministério tem, e talvez seja um delírio o que estou falando. Não temos nenhuma condição agora porque não há sequer um compreensão do que vale a cultura e a economia criativa para o Governo Federal. Os estados e os municípios estão sozinhos, pois os recursos chegam em uma realidade difícil”, critica.

Redesenho

Ela propõe um redesenho dos modelos de negócio, avaliando que o fomento do turismo de nicho e de experiência – no qual se consome produtos locais – reativaria a economia criativa e colaborativa, e ajudaria os pequenos artesãos que vendem bens simbólicos que marcam a identidade do Ceará. Dessa forma, pontua, é preciso deixar de lado o “massificador”, que não compra nada daquela região. “Precisamos aprender a fazer isso aqui mesmo no estado, onde as pessoas não conhecem nem os Inhamuns”, reflete.

Na leitura da especialista, mesmo que a pandemia tenha suscitado alguns fluxos de movimentos solidários, é pouco provável que as pessoas passem a valorizar mais a cultura no pós-crise, uma vez que já não davam a devida importância ao setor antes.

As pessoas continuam a explorar as empregadas domésticas, indo para a rua e pouco preocupadas se estão contaminando o garçom. Permanecem como sempre foram. É um modelo de sociedade inviável para quem virá depois. É uma grande alienação. Não temos que ser pessimistas, e sim realistas. Não sou messiânica, mas creio que as pessoas continuam a viver com os seus valores“, pondera.

(Foto: Marília Camelo)

Desigualdades

Cláudia Leitão afirma que, no isolamento social, as pessoas viveram de cultura, e a pandemia escancarou que a sociedade é apartada, mostrando as desigualdades social, econômica, cultural, “em que um grupo tem acesso a bens a a serviços, e outro que não tem nem água para lavar a mão”. Os valores, discursos, ações e representações atuais, observa, estão enraizados no século XX, o que para ela é prejudicial ao desenvolvimento humano e do país.

O século XXI não chegou ainda. As classes mais altas têm uma dificuldade em aceitar a pandemia, negando que ela exista, o que é infantil. E a grande parte da população brasileira é vítima, não tem o que fazer. Precisa sair porque não tem nem onde ficar dentro de casa, vive em situações precárias, sem nenhuma condição, morando oito pessoas em um cômodo. O que espera disso? Não há o que esperar. Seria um cinismo. É um quadro muito dramático”, assevera.

ACESSE AQUI A REVISTA GENTE POR MÁRCIA TRAVESSONI

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