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Por que não devemos fazer piada com a bipolaridade de Kanye West

Por Redação
Por que não devemos fazer piada com a bipolaridade de Kanye West
Diagnosticado com transtorno bipolar, o rapper Kanye West acumula prêmios ao mesmo tempo que envolve-se em polêmicas (Foto: Reprodução/Twitter)

Muitas pessoas acreditam que a internet é terra de ninguém e caracteriza-se como um espaço sujeito à livre opinião sobre diversos assuntos. Mas o que acontece quando discursos online satirizam um assunto sério e delicado? Nos últimos meses, o rapper norte-americano Kanye West foi alvo de comentários difamatórios a respeito de temperamento e envolvimento em polêmicas como o anúncio de sua candidatura à presidência dos Estados Unidos. Na ocasião, a empresária e influencer Kim Kardashian West, esposa de Kanye, lembrou aos internautas que ele foi diagnosticado com transtorno bipolar, em 2016, e pediu empatia. E você, sabe o que é bipolaridade?

O Site MT convidou a psicóloga Janaina Silva Craveiro, coordenadora do Grupo de Estudos em Transtornos Afetivos (Geta) da Universidade Federal do Ceará (UFC), para falar sobre o assunto.

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Segundo ela, a bipolaridade é um transtorno mental crônico grave caracterizado por episódios depressivos, maníacos ou mistos. “O paciente fica em um período depressivo e em outro momento pode passar a agir de forma totalmente diferente. No episódio maníaco, ele fica eufórico e tudo passa a ser exagerado. Ele sai de um episódio de tristeza intensa, de choro e angústia, para uma grande alegria. O transtorno é caracterizado por esses dois episódios, mas exige todo um cuidado na hora do diagnóstico”, explica.

Com várias conquistas na carreira, Kanye é o nono artista que mais vendeu músicas em formato digital no mundo, além de colecionar 21 Grammys, sendo assim o maior rapper da história da premiação. Apesar do sucesso e criatividade admirável, o artista constantemente tem o nome relacionado a polêmicas envolvendo opiniões controversas e atritos com outras personalidades. As disparidades na trajetória de Kanye podem estar diretamente ligadas ao transtorno mental.

De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o transtorno bipolar atinge atualmente cerca de 140 milhões de pessoas no mundo e está na lista das principais causas de incapacitação de indivíduos entre 15 a 44 anos.

A psicóloga Janaina Craveiro defende a importância do diagnóstico e afirma que a condição tem tratamento. “De início é feita uma anamnese, exame detalhado da história de vida da pessoa. Se ela preencher os critérios, iniciamos o tratamento com o acompanhamento de uma equipe interdisciplinar: psiquiatria, na dinâmica medicamentosa; psicologia, na ressignificação de dores; entre outros profissionais para traçarmos uma dinâmica favorável ao paciente”.

“O psicólogo acompanha o paciente para que ele compreenda a doença. Em alguns casos, trabalhamos também com a família que às vezes não entende o transtorno. Eles precisam apoiar o paciente”,

orienta Janaina Craveiro.

A coordenadora do Grupo de Estudos em Transtornos Afetivos ensina a diferença entre os tipos do transtorno bipolar. “No tipo 1, podem ocorrer episódios maníacos, alucinações, delírios e euforia bem acentuada, podendo também haver episódios depressivos. No tipo 2, ocorrem os episódios de depressão e hipomania, uma forma mais leve da mania. Existem ainda pacientes que não se enquadram exatamente em nenhum dos tipos e chamamos eles de pessoas com espectro do transtorno bipolar“, diz.

“Tentamos ajudar os pacientes a chegarem num período sem sintomas ou, pelo menos, com sintomas reduzidos: a eutimia, equilíbrio no contexto de vida”,

afirma Janaina.

Informação e respeito

Poucas mensagens e alguns cliques nas redes sociais têm a capacidade gerar ótimos debates, mas outros comentários podem ferir alguns grupos e pessoas em determinado momento. Em julho, Kanye West publicou várias mensagens no Twitter no que pareceu ser um episódio de crise mental. Na sequência de postagens, o rapper insinuou que a esposa Kim queria interná-lo. Não demorou para que seu nome acionasse o tribunal virtual, desde os que se preocuparam – com razão – até os internautas que fizeram memes e piadas.

Em julho, Kanye West chorou ao falar sobre aborto durante comício nos EUA (Foto: Reprodução/Twitter)

Pessoas com transtorno bipolar, como West, muitas vezes são estigmatizadas nos relacionamentos pessoais e profissionais. “Com informação e conscientização, minimizamos os danos causados pela sociedade desinformada. Conversas e palestras sobre o assunto podem ajudar. A mídia também”, opina a psicóloga Janaina Craveiro.

“Se não for tratada, o bipolaridade pode comprometer etapas da vida. O paciente acompanhado é totalmente diferente do paciente desassistido, mas é um mito dizer que eles não podem trabalhar ou se relacionar”,

aponta a psicóloga.

Grupo de estudos

Dar suporte e atenção aos pacientes com bipolaridade é essencial para estabilizar a doença. Em vista disto, o Grupo de Estudos em Transtornos Afetivos foi fundado em 2004 para atender a população de Fortaleza gratuitamente. Coordenado por Janaina Craveiro, o projeto possui supervisão dos médicos Fábio Gomes de Matos e Souza e Luísa Weber Bisol, professores da área de psiquiatria da UFC. Atualmente, o Geta tem três livros publicados e atende 200 pessoas da Capital e do Interior do Estado. Para mais informações, acesse as redes sociais do grupo.

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