15 set 2023 | Notícias
Em entrevista à Plataforma MT, a psicóloga Tamyres Soares de Souza explica que um dos fatores que mais abalam o psicológico dessas mulheres é o fato de sempre serem estereotipadas pela sociedade e terem seus corpos sexualizados

Chegamos a mais um Setembro Amarelo, oficialmente uma campanha de prevenção do suicídio. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), os índices de suicídio no mundo cresceram nos últimos anos, e está no topo dos fenômenos que mais matam, especialmente os jovens. O Brasil é um país de maioria negra – 56% da população brasileira é preta e parda –, quase um terço (27,8%) desta mesma população é composta de mulheres negras. As camadas de preconceitos vividos por mulheres negras é algo profundo e estrutural, em que a estrutura tira delas a humanidade e o direito de viver.
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Alguns estudos revelam que a mulher negra possui o pior acesso à qualidade de atendimento em saúde, sendo reflexo de um racismo institucional e sistêmico presente na nossa sociedade, ato que precisa ser encarado como fator de risco para a saúde mental.
Em entrevista à Plataforma MT, a psicóloga Tamyres Soares de Souza explica que um dos fatores que mais abalam o psicológico dessas mulheres é o fato de sempre serem estereotipadas pela sociedade e terem seus corpos sexualizados.
“São práticas de representação que contribuem para os significados ao mundo social, cultural e político. Dentre as que mais afetam emocionalmente mulheres negras, cito a hipersexualização de nossos corpos, que foi amplamente difundida através da figura da “mulata boazuda”, da globeleza e dessa postura fogosa associada a mulheres negras. Outro estereótipo bastante comum é a ideia de que mulheres negras devem ser mártir, ou seja, aguentar tudo e ser forte o tempo todo, o que cria um distanciamento emocional sobre si mesma e dificulta o entendimento das suas próprias necessidades individuais”, destaca Tamyres.
O lugar de disponibilidade exacerbada, como “cuidadora”, também se faz presente no comportamento de mulheres negras, fato que ainda é ligado a uma herança colonial associada à figura das mucamas, que mais tarde teve o termo substituído pelo da empregada doméstica. A profissão tem taxa de 16,4%, quase o dobro em relação à participação das mulheres brancas (8,8%), segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos em 2022.
E quando falamos do âmbito amoroso, destacamos a Solidão da Mulher Negra e a dificuldade em estar em um relacionamento, além de como essa problemática abala a autoestima dessas mulheres. O conceito foi abordado por Bell Hooks em seu artigo “Vivendo de amor”, onde a autora pontua que essas mulheres sentem que vivenciam pouco ou nenhum amor em suas vidas.
O estereótipo de beleza é um dos muitos exemplos de preconceito, e durante muito tempo a sociedade julgou o padrão “branco” de beleza como o certo, fazendo com que essas mulheres fossem lançadas em um lugar de preterimento e abandono pelos seus parceiros.
“No trabalho terapêutico, é possível perceber essas armadilhas sociais impostas e quais ajustamentos devem ser feitos individualmente, sensibilizando essas mulheres a trabalharem sua autoestima, sua comunicação e se colocarem em um lugar protagonista onde ela também se perceba na posição de escolha e não só no de escolhida. Dando novos sentidos também aos conceitos de amor e afeto para além dos relacionamentos românticos“, aponta a psicologa.
A psicóloga ainda afirma que é comum quadros de baixa autoestima, estresse, depressão, fobia e sensação de deslocamento em mulheres negras expostas ao duplo preconceito – o racial e de gênero – perante a sociedade. Ela também destaca que grande parte desses sintomas contribuem para causas que levam ao suicídio.
“A mulher negra é oprimida por ser mulher, subjugada por ser negra, e, se eu trouxer um recorte de classe, a situação tende a ficar mais difícil. Desde muito cedo, essas mulheres precisam lidar com uma sociedade patriarcal que delega funções a partir do gênero. Paralelo a isso, o preconceito de raça nos conduz a um contexto inferior, nos forçando frequentemente a nos questionarmos sobre o nosso modo de ser no mundo, fragmentando e violentando a nossa identidade”, disse a psicologa.
Para a Tamyres, a psicologia social tem um papel fundamental nesse contexto, mas infelizmente ainda se percebe na prática o descaso em discutir o racismo como promotor de adoecimento psicológico durante a graduação e poucas vezes se é debatido o tema em sala de aula.
“Acredito, que a psicologia tem o dever reparatório de contribuir para essa transformação social, viabilizando essas discussões ao inserir esse tema em sua grade curricular obrigatória. É fundamental o profissional de psicologia compreender como o racismo atravessa a sua compreensão de mundo, assim como o atravessa a subjetividade da pessoa que procura o seu serviço”, relata a psicóloga.
Tamyres pondera, ainda, que a questão do aquilombamento de mulheres negras é um passo importantíssimo para pensarmos estratégias de bem-estar para sociedade, sendo necessário dar segurança psicológica neste recorte em específico, abordando segurança, educação, trabalho e renda.
No Ceará, existe o Coletivo Psicologia Denegrida, que surge com a proposta de um movimento contra-colonial, apontando de forma crítica a responsabilidade da estrutura nos processos de violência e adoecimento da população, propondo atividades que contemplam palestras, grupos de saúde mental direcionados a mulheres negras, além de oficinas e clube de leituras. Não é à toa que Angela Davis fala que quando uma mulher negra se movimenta, toda estrutura se movimenta com ela. O encontro entre mulheres negras promove cura.