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‘Tudo que tocava era revestido de amor’, diz Ana Cristina Mendes sobre Bia Perlingeiro

Por Redação
‘Tudo que tocava era revestido de amor’, diz Ana Cristina Mendes sobre Bia Perlingeiro
Bia Perlingeiro e Ana Cristina Mendes. (Foto: Divulgação)

A morte da galerista Bia Perlingeiro, no último sábado (4), deixou em choque os entusiastas da arte e da cultura e todos aqueles que de alguma forma a conheciam. Bia tinha 56 anos, estava internada no Rio de Janeiro e foi vítima de complicações da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

Casada com Max Perlingeiro, ela administrava, ao lado do marido, a galeria Multiarte, em Fortaleza; a Pinakotheke Cultural, no Rio; e a Pinakotheke, em São Paulo. Nas redes sociais, o filho do casal, Victor Perlingeiro, divulgou um comunicado sobre a morte da mãe, que foi replicado no perfil da galeria Multiarte. “Agradecemos imensamente o tempo que pudemos conviver com ela, mulher, mãe, amiga, irmã, profissional ímpar, que deixa um lindo legado de amor, firmeza e coragem”, dizia a legenda.

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Entre as homenagens que a galerista recebeu, o Site MT teve acesso a uma carta escrita pela artista visual Ana Cristina Mendes, que tinha uma relação muito próxima de amizade e afeto com Bia Perlingeiro.

Leia a carta na íntegra:

Miga querida,

Estou segurando a sua mão nesse exato momento e, há pouco, um vento delicioso tocou minha pele. Senti você. Quisera eu colocar nessa carta todas as palavras que expressem meu amor, gratidão e alegria em sermos tão próximas. Enquanto escrevo, ouço a sua voz encorajadora me dizendo: “escreva, você consegue!”. Mas “Miga”, eu sei que o que lhe escrever é menor do que você é e continuará sendo para mim e para todos que tiveram a benção de lhe encontrar.

“Mas vamos lá”, como você dizia. Vou começar falando do nosso amor. Se pensarmos nele, é como um laço de amor que une duas irmãs de coração. Era com esse amor que nos ligávamos diariamente para falar do que viesse, como se a existência fosse algo trivial. Bia, você tinha um segredo profundo que ao longo da vida foi se revelando a todos: tudo que tocava era revestido de amor. De modo que o simples era para você o mais complexo. E assim, fosse uma ligação, fosse um grande projeto, ou qualquer coisa que fizesse, deixava algo reverberando em nós, gerando um estado contínuo de transformação dos nossos sentimentos orquestrados pela sua doce voz e sua profunda reflexão.

Sempre com sua escuta dedicada, levando a sério tudo que disséssemos, você nos proporcionava aquele estado de vibração que é melhor entendido como uma experiência estética personalizada. Toda vez que você ia ao seu próprio encontro ou ao encontro do outro, ia como uma artista transformar o nosso estado nesse mundo e arquitetando uma experiência reveladora com um toque de alquimia. Você sabia que assim estaríamos ligadas por toda a vida. 

Nós aprendíamos muito juntas, a cada encontro desde 2000 quando, em nossa sede de busca, nossa vontade enorme de conhecer os mistérios desse viver, nos aflorou imediatamente uma afinidade enorme. Vinte anos de convivência diária, mesmo quando você viajava. Desde então não nos largamos mais, nos complementávamos e você acreditava e confiava em mim. Nesse tempo, o seu projeto de vida era a criação de seu amado filho Victor, que era pequeno, vi crescer o que você fez com tanto esmero, deixando seu legado visível na presença entalhada com tanta delicadeza. Do seu relacionamento amoroso fez o tecido de aprendizados e descobertas que não cabia só em si e deveria ser doado ao outro.

O resultado foi a criação e a manutenção de um dos espaços mais potentes de arte em Fortaleza: a Galeria Multiarte, uma extensão de si. Ao longo de sua vida foi, passo a passo, construindo uma forma de proporcionar a todos uma experiência única de arte que dissesse ainda mais sobre a vida e os significados que você poderia apresentar. Cada um tinha, ao sair dali, materiais suficientes para repensar o viver ou analisar com mais cautela os gestos que deveriam ser impressos. Passando por você, cada um deveria imaginar a marca que gostaria de imprimir nessa vida. Queria que todas as pontas da vida fossem ligadas, que as pessoas conhecem os processos artísticos de todas as esferas e assim fazia, pouco a pouco, o bordado da doação, integrando espaços e articulando pessoas no caminho da arte. 

A arte era sua própria vida. Sua vida era a galeria. A galeria eram as pessoas tocadas pela alquimia dos materiais e das imagens possíveis que a arte proporciona. E o espaço expositivo como produção de pensamento era desdobrado em seu jardim de orquídeas. Ao entrar nele, todos ganhavam o espaço livre do céu ao mesmo tempo que eram imantados pelas orquídeas. Bia você é tão linda como suas orquídeas, a flor mais delicada do nosso jardim, a quem reservamos o cuidado diário porque, repentinamente, seremos tomados pela magia e o encanto do desabrochar de suas flores. Delicadas, porém firmes. Lição das orquídeas: incansavelmente, Bia, você renascia a todo momento. Como se tivesse pressa de viver, explicava minuciosamente para o outro o que queria dizer. Só parava quando um projeto estivesse pronto e, como suas orquídeas que nunca morriam, tinha uma disposição contínua para o viver. E Bia, como a presença bela, amorosa e misteriosa de suas orquídeas, ficará para sempre em meu coração. Você é minha miga linda, iluminada, meu anjo, nosso amor é eterno. 

Como muito amor, muita gratidão,

de sua “miga” Ana Cristina Mendes

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