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Brenda Rolim – A importância da organização comunitária para o futuro das nossas praias

3 set 2025 | Living

Por Redação

Sem um plano diretor sólido e respeitado, a expansão desordenada pode provocar efeitos irreversíveis
Arquiteta e presidente do Conselho de Arquitetura do Ceará (CAU/CE) reflete sobre necessidade de planejamento comunitário no litoral cearense (Foto: Reprodução/Instagram)

Por Brenda Rolim

O litoral cearense vive um momento de intensa valorização e visibilidade no mercado imobiliário e turístico, especialmente no segmento de luxo. Vilas, resorts, condomínios e empreendimentos sofisticados brotam em praias que até pouco tempo guardavam um ritmo mais simples, ligado à pesca, à cultura local e à natureza intocada. Esse movimento traz oportunidades – geração de emprego, aumento da arrecadação municipal, infraestrutura, circulação de renda –, mas também carrega riscos profundos quando não acompanhado de planejamento urbano responsável e de participação comunitária ativa.

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 Brenda Rolim – ‘Cidades Genéricas’ e o mais do mesmo que pode nos adoecer

Como presidente do Conselho de Arquitetura do Ceará (CAU/CE), junto ao presidente do CAU/PI e equipe técnica de fiscalização, embarquei em uma viagem de 500 quilômetros, visitando cidades praianas da famosa Rota das Emoções. Em cada local, conversamos com prefeitos e gestores públicos para alertar sobre a importância desse momento de virada de chave e o legado que as decisões do agora podem deixar para gerações futuras. Fomos muito bem recebidos e, em uma das oportunidades, fiz uma pequena palestra para a comunidade, falando sobre a importância de sermos o que somos e de preservar nossa identidade e cultura nesse processo de transformação.

Sem um plano diretor sólido e respeitado, a expansão desordenada pode provocar efeitos irreversíveis: especulação imobiliária predatória, ocupação irregular de dunas e áreas de preservação, sobrecarga nos serviços públicos, expulsão das comunidades tradicionais e, por consequência, a perda do principal atrativo da região: a beleza natural e cultural que dá valor à terra. O que hoje parece progresso pode, no médio e longo prazo, resultar em devastação ambiental e desvalorização imobiliária, afastando o turismo de qualidade e destruindo a identidade local.

Por isso, a organização da comunidade é fundamental. Quando moradores, associações, empresários locais e lideranças se unem em diálogo com a prefeitura, cria-se um espaço de construção coletiva capaz de equilibrar interesses econômicos com proteção ambiental e social. O plano diretor municipal deve ser o instrumento-guia dessa visão, definindo regras claras de ocupação do solo, preservando áreas sensíveis, incentivando práticas sustentáveis e assegurando que o crescimento urbano respeitará a capacidade do território.

Sem consciência ambiental e valorização da própria cultura, qualquer política pública se fragiliza

Mas, para que esse plano tenha força real, é essencial que a população compreenda seu papel. Sem consciência ambiental e valorização da própria cultura, qualquer política pública se fragiliza. O respeito às tradições locais, o uso responsável dos recursos naturais e a preservação dos ecossistemas depende não apenas de leis, mas da postura cotidiana de cada morador, visitante e investidor. A experiência de outras regiões já mostrou que, quando o avanço acontece sem essa base, um preço caro a se pagar vem depois: praias poluídas, imóveis desvalorizados, comunidades desestruturadas, abandono, violência e perda de competitividade frente a outros destinos.

Cabe não só a prefeitura, mas também à comunidade cobrar, fiscalizar, participar e cultivar a consciência de que preservar é também valorizar. Somente assim poderemos assegurar que a riqueza que hoje aflora em nossas praias não seja apenas um ciclo passageiro, mas, sim, um legado de prosperidade sustentável e identidade preservada para as próximas gerações.

O que atraiu os olhos do mundo para nosso litoral é justamente ser o que somos. Se perdermos nossa singularidade, perderemos nosso maior tesouro: sermos únicos!

***

Brenda Rolim é formada em arquitetura e urbanismo pela Universidade Federal do Ceará, especialista em visual merchandising e retail design pelo Instituto Europeu de Design. Atual presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Ceará, arquiteta apaixonada por design e se destaca por sua abordagem inovadora e consciente evidente em seus projetos. Acredita que a arquitetura deve refletir o espírito do tempo e a identidade dos seus usuários, promovendo bem-estar e conforto. Além de seu trabalho em projetos residenciais, hoteleiros e comerciais, também se envolve em iniciativas comunitárias, buscando sempre contribuir para um ambiente urbano mais agradável, acessível e justo.

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