Conheça a história da cearense pioneira em medicina paliativa

Por Redação
Conheça a história da cearense pioneira em medicina paliativa
Com 60 anos recém-completados, Inês Melo continuará trabalhando, mas em 2020 pretende dedicar mais tempo à família. (Foto: Divulgação)

Pioneira na área do tratamento da dor e na medicina paliativa, Inês Melo é uma das agraciadas com o Prêmio RioMar Mulher 2020, na categoria Saúde, . “Enxergo este prêmio como sendo uma forma de enaltecer algumas das mulheres que durante sua jornada conseguiram fazer a diferença na vida das pessoas”. A cerimônia de entrega do troféu acontece dia 12 de março, no Teatro RioMar Fortaleza

Com 60 anos recém-completados, Inês relembra que desde criança sonhava em ser médica e conta que a mãe foi o grande exemplo para que ela escolhesse dedicar a vida a cuidar das pessoas.

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“Por inúmeras vezes, vi minha mãe, professora primária, receber conterrâneos de seu interior, doentes e em busca de auxílio, em nossa casa. Ela levantava bem cedo para poder levá-los ao médico, realizar exames, marcar cirurgias, etc. Além disso, meu pai sempre me disse que queria que eu fosse médica para poder atender todas as pessoas gratuitamente e fazer muita caridade”, conta Inês, que é a única médica da família

“Isso me dá uma grande responsabilidade que anseio em breve dividir com minha filha, Iamê, que se formará em julho”, completa. 

Inês Melo com as filhas Yasmin (à esq.) e Iamê. (Foto: Reprodução/ Instagram)

Empatia com a dor alheia

Anos depois de terminar a residência médica em anestesia, no Rio de Janeiro, Inês resolveu se dedicar à área do tratamento da dor. “Ninguém sabia que existia médico para tratar dor. Fui fundadora e primeira presidente da Sociedade Cearense para Estudos da Dor, buscando disseminar a importância do alívio da dor como um direito humano”, relata.

Foi durante o trabalho no Hospital do Câncer, atual Hospital Haroldo Juaçaba, já em Fortaleza, que ela conheceu a Enfermaria Carmem Prudente, onde ficavam pacientes e parentes que vinham do interior do Estado para realizar o tratamento de câncer na Capital.

“A enfermaria foi fundada pela querida Dona Heloísa Juaçaba, Lúcia Alcântara, Edyr Rolim e tantas outras mulheres importantes que faziam parte da Rede Feminina de Combate ao Câncer. Ao ir atender uma paciente naquela enfermaria me dei conta que a dor era apenas um sintoma que causava sofrimento, mas que os pacientes apresentavam outros sintomas que causavam muito sofrimento além da dor”, descreve

Foi nessa situação, conta a médica, que ela ficou inquieta e passou a buscar formas de ajudar aquelas pessoas que tinham abrigo e comida, mas ainda estavam sofrendo muito.

Ampliando as fronteiras

Foi então que Inês conheceu os cuidados paliativos, ciência pela qual se apaixonou e passou a ser a grande motivação de vida. “O então diretor clínico, Dr. Victor Hugo, oncologista clínico, recebeu uma correspondência da Inglaterra divulgando um curso de formação em Cuidados Paliativos no Hospice Saint Christopher, em Londres, o qual ele me incentivou fazer. Desde então, venho buscando me aprimorar, compartilhar conhecimentos e difundir essa área que exige conhecimento técnico e científico”, detalha. Mas como ela explicaria o que é a medicina paliativa?

Segundo a especialista, os cuidados paliativos tratam de pacientes portadores de doenças crônicas ameaçadoras de vida, com critérios de irreversibilidade, bem como de seus familiares, prevenindo e aliviando os sintomas que possam causar sofrimento, sejam eles físicos, emocionais, sociais ou espirituais.

O cuidado é realizado por uma equipe multiprofissional, e o foco deixa de ser a doença e passa a ser o ser humano, com a sua biografia. “Da mesma forma que nos preparamos para o nascimento de um bebê, temos o desafio de preparar os nossos pacientes e familiares para o momento da partida“, define Inês Melo.

Histórias marcantes

As lembranças e histórias dos pacientes são muitas, entre elas, a de um paciente de Juazeiro do Norte que viajava frequentemente para Fortaleza, onde tratava de tumor grave, e revelou certa vez ter o sonho de viajar de avião antes de morrer.

“Toda a equipe de voluntários se mobilizou para realizar o sonho, que o deixou muito feliz mesmo diante das circunstâncias. Assim como essa, tivemos inúmeras outras vivências de mobilização da nossa equipe em busca de realizar sonhos ou desejos ao final de vida como batizados, casamentos ou até mesmo comer um Big Mac. Costumo dizer que para nós é sempre um privilégio cuidar de pacientes com histórias de vidas tão marcantes e singulares“, reconhece a médica.

Nos planos que Inês faz para 2020 está o de se dedicar mais à família. “Como boa paliativista que sou, continuarei trabalhando, porém buscando dedicar mais tempo aos meus pais e à minha família. Quero também ter mais tempo para alimentar o espírito, ampliar conhecimentos na área da Bioética, ler, assistir a filmes e curtir minha casa, reunindo amigos e familiares”, lista.

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