Márcia Travessoni – Eventos, Lifestyle, Moda, Viagens e mais

Entre em contato conosco!

Anuncie no site

Comercial:

comercial@marciatravessoni.com.br
Telefone: +55 (85) 3242 0333

Redação:

conteudo@marciatravessoni.com.br
conteudo1@marciatravessoni.com.br

Artista cearense Nyna Nóbrega fala sobre vivências como lésbica, aceitação e amor próprio

29 ago 2021 | Lifestyle

Por Tainã Maciel

Nyna Nóbrega é artista visual e arquiteta. Atualmente, lidera uma equipe de gestão de uma marca de roupas local, presta assessoria de projetos para a indústria criativa e dá aula de história da arte para crianças em um projeto social (Foto: Arquivo Pessoal)

“Para quem é ligado em astrologia, sou capricorniana com ascendente e lua em aquário. Já ouvi por aí que essa é uma combinação meio antipática, mas prometo que aqui dentro é só bem-querer e dengo”. As palavras são da artista visual e arquiteta Nyna Nóbrega, 26 anos, voz potente do movimento artístico local que está ganhando visibilidade nas redes sociais por compartilhar vivências relacionadas a temas como diversidade e amor próprio. No Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, celebrado neste domingo (29), a equipe do Site MT compartilha dois dedos de prosa com Nyna:

LEIA MAIS >> O significado da sigla LGBTQIA+ e a importância do orgulhar-se

Conheça o trabalho da cearense Nyna Nóbrega como artista visual

Quando você se entendeu como uma mulher lésbica?

Nyna Nóbrega: Quando eu era mais nova me percebia no limbo compreendido entre o tudo e o nada. Como se em diástase em meio ao que eu sentia e ao que eu deveria sentir. Não me encaixava verdadeiramente em lugar algum. Escutava minhas amigas contarem com entusiasmo sobre suas paixonites e me via pressionada a mimetizar aquele comportamento para me reconhecer parte de algo. Mesmo que não conseguisse entender o objetivo de andar de mãos dadas com alguém. O meu primeiro beijo foi com um moço super fofo. Estávamos no cinema, ele repousou os braços nos meus ombros e não demorou até virar o rosto. Custei a entender que fechar os olhos era necessário para não parecer uma completa maluca. Nada era instintivo. E naquele átimo, para mim, curtir o momento era simplesmente assistir ao filme. 

Apesar da maciez dos lábios a minha sensação era parecidíssima com beijar uma porta. Inclusive, se você está lendo isso, te peço desculpas. Aos 15, eu sabia tanto da minha sexualidade quanto você no instante de coragem prólogo ao beijo. 

Ficamos mais um tanto de vezes. Eu extremamente desconfortável e ao mesmo tempo satisfeita por finalmente caber na expectativa alheia. Eu sempre fui uma boa leitora e sabia com propriedade falar de amor, mesmo sem senti-lo. Me desrespeitei mais algumas vezes e atuei em alguns outros beijos até desistir de sentir. Talvez o amor não fosse pra mim. 

Foi só quase um ano depois, estudando para uma prova de vestibular com Ana, uma amiga da escola, que entendi a rebeldia do suspiro. Ela me roubou um beijo e como em fissão nuclear, explodi. O toque retorceu e amansou, minhas mãos suaram e o calor dos rostos me fez pela primeira vez querer ser verão. Naquele momento tudo fez sentido.

Foto: Arquivo Pessoal

Qual a importância de compartilhar as suas vivências e o orgulho de fazer parte da comunidade LGBTQIA+ nas redes sociais?

Devo admitir que se não fosse o desaforo de Ana, eu possivelmente teria me agredido por mais alguns anos. Não havia representatividade e eu não sabia que mulheres podiam amar mulheres. Ser lésbica não era uma opção porque nunca tinha visto ou ouvido ninguém existir desta forma. Hoje levanto a bandeira porque ambiciono ser o exemplo que me faltou. Doeu ter que desaprender e reaprender a viver sem referências. Me desmontei inteira para me construir genuinamente quem sou. Hoje posso dizer que tenho orgulho da mulher segura, bem resolvida e autoconfiante que me tornei. Mas sei que ainda existem tantas outras Nynas por aí se submetendo e sendo permissivas a experimentações infelizes. Eu escrevo por elas, eu pinto pra elas e espero poder ser companhia em um caminho que eu sei o quão pode ser solitário. 

Você recebeu apoio quando se assumiu lésbica?

Nyna Nóbrega: No início tudo é complicado e a minha experiência não foi diferente. Mesmo sendo vulcão em erupção e sentindo na carne, pele e ossos toda a minha inconformidade sentimental, meu entendimento ainda assim demorou 16 anos. Foi dolorido, aflito e angustiante me perceber e me aceitar enquanto uma mulher lésbica. Então compreendendo que eu precisei de tempo para viver meus processos, nunca me senti no direito de cobrar aceitação de imediato a ninguém. Apesar de terem demorado alguns anos para começar a chamar minhas namoradas de nora, minha família sempre me respeitou demais.

O que eu tenho a dizer é que nada melhor que um dia após o outro. Minha eu adolescente jamais imaginou que minhas namoradas iriam participar do amigo secreto do natal, entrar de braços entrelaçados comigo em cerimônias de casamento da família e combinar meu aniversário surpresa junto com minha mãe e avó. Eu só tenho a agradecer a estrutura que tenho em casa ao amor incondicional dos meus. Só sou quem sou por conta deles.  

Foto: Arquivo Pessoal

Corpo gordo, livre e lindo

Há uma semana, Nyna Nóbrega viralizou na web com um vídeo falando sobre a potência e a beleza do seu corpo gordo. O registro foi compartilhado no Instagram pelo portal “Mídia Ninja” e “Chapadinhas de Endorfina“. Até domingo (29), o vídeo já acumula quase 3 milhões de visualizações.

Crescemos escutando que magreza é sinônimo de beleza. Quais fatores te ajudaram a enxergar a potência do seu corpo? É um processo recente?

Nyna Nóbrega: Eu sempre tive o hábito de me olhar no espelho antes de sair de casa e já tem alguns anos que meu reflexo me olha de volta com carinho. Lembro que muitas vezes me sentia bacana, bonita e arrumada, mas minha autoimagem sofria um baque quando eu ia ao shopping e tentava comprar nas lojas bacaninhas. Meu tesão acabava na hora e voltava para casa me sentindo nula. Não porque de fato me achasse feia, mas por que nenhum estabelecimento parecia estar preparado para me atender. Eu já entrava nas lojas pedindo para ver tudo que eles tinham no meu tamanho e torcia pra que algo que eu curtisse viesse no bolo. Como as medidas não são tabeladas era uma roleta-russa descobrir qual marca iria servir e qual logo-bem-conceituada iria me punir por ser gorda.

No meu imaginário ignorante eu não aceitava comprar em lojas voltadas para o público plus size. Foi só quando comecei a consumir conteúdo de pessoas que se pareciam fisicamente comigo e que falavam sobre o amor próprio, que eu passei a questionar porque eu não me via da mesma forma. A indagação daquilo que aceitamos como verdade é extremamente necessária pra que consigamos entender de onde está vindo o desconforto. Se o desconforto é seu, mude. Se é do mundo, lute! 

Foto: Arquivo Pessoal

Você esperava toda essa repercussão do vídeo sobre esse processo? Recebeu muitos feedbacks positivos?

Nyna Nóbrega: Olha, eu imaginava que seria um vídeo que geraria identificação, mas de forma nenhuma previ o boom que ele foi. A verdade é que este vídeo em específico surgiu de um comentário que desceu torto pela garganta e que eu não consegui ser didática na minha resposta. Por mais que eu saiba que não é minha obrigação ser pedagógica com ninguém – uma vez que a internet é uma fonte inesgotável de informação – ainda assim me incomoda quando não consigo me comunicar cordialmente. Por conta disso, o vídeo sobre os comentários alegoricamente positivos que surgem após um pseudo emagrecimento se ancorou no esclarecimento. Acredito ser importante para outras mulheres, assim como foi importante no meu processo de acolhimento, ver gordas se amando.

“A exposição do corpo gordo se faz necessária para que seja internalizado pelo imaginário comum que este também é um corpo normal, bonito, válido e gostoso”,

afirma Nyna Nóbrega.

Pretende investir na carreira de criadora de conteúdo digital? De onde partiu a ideia de produzir esse tipo de conteúdo? 

Nyna Nóbrega: Eu sou antes de tudo artista visual. Escrevo, roteirizo e produzo meus conteúdos porque amo me comunicar. Acredito que se posso ser faísca de ignição para diálogos importantes, porque não fazê-lo? O primeiro vídeo filmado com texto programado e script foi o que eu falo sobre a internação por Covid dos meus pais. É um vídeo angustiado de um coração pungente, mas ao mesmo tempo foi refúgio e aconchego pra quem passou pela mesma situação. Com ele vi que minhas palavras, que foram tanto tempo apenas minhas, tinham a capacidade de atravessar distâncias. Assim, abri o peito, deixei a timidez de lado e sussurrei ao mundo as minhas vivências. Guardo-o com muito carinho, mas não gosto de assisti-lo porque foi um período de muitas incertezas.

É importante reforçar que a minha prioridade é o Ateliê, meus estudos, meu crescimento artístico e, claro, minha felicidade. Enquanto as mídias me fizerem feliz, pode ter certeza que estarei aqui dividindo minha rotina, pensamentos, trabalhos, paixões e vida. 

Foto: Arquivo Pessoal

Como todos esses assuntos que abordamos reverberam na sua arte?

Nyna Nóbrega: Minha vida, história e vivências são indissociáveis da minha produção. É impossível apontar onde termina o artista e onde começa a expressão. Somos essa mistura confusa e complexa de sentimentos e cores. A carcaça carrega a consciência, a alma reflete na carne e a incompreensão da unidade é contemplada pela arte. Eu sou o que pinto, o que escrevo, o que falo, os que amo, as que fui e vivo na inquietação de tudo aquilo que ainda poderei vir a ser. O futuro é rio. E eu tenho sede. 

Publicidade

VEJA TAMBÉM

Publicidade

PUBLICIDADE