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Mulheres na Ciência: Andréia Formico desenvolve programa de monitoramento de leitos e jogos sobre câncer

Por Redação
Mulheres na Ciência: Andréia Formico desenvolve programa de monitoramento de leitos e jogos sobre câncer
Professora da Unifor e Ph.D. em Ciência da Computação, Andréia Formico é a terceira entrevistada da série "Mulheres na Ciência". (Foto: Alex Campêlo)

Ph.D. em Ciência da Computação, Andréia Formico não apenas tem o nome consolidado em uma área tradicionalmente dominada pelos homens, como faz revoluções nos próprios estudos. As pesquisas às quais se dedica unem tecnologia e saúde, resultando em programas de monitoramento de leitos de UTI e desenvolvimento de jogos transformacionais que auxiliam no tratamento do câncer de mama.

Mulheres na Ciência é um conteúdo especial desenvolvido pela plataforma MT em parceria com a Universidade de Fortaleza (Unifor) para dar visibilidade ao trabalho de mulheres cientistas que atuam no Brasil. A professora Andréia Formico é a terceira entrevistada da série.

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Realizada dentro da Universidade de Fortaleza (Unifor), sob a coordenação de Andréia, a pesquisa sobre o monitoramento de leitos de UTI resultou no Equipamento de Visualização e Alerta (EVA), gerado por meio de uma impressora 3D, com uma câmera que usa visão computacional e consegue monitorar dados fisiológicos de pacientes no leito hospitalar, ou até mesmo domiciliar, alertando a equipe da saúde quando necessário. A expectativa é que o EVA, desenvolvido durante a pandemia do novo coronavírus, seja lançado em outubro deste ano.

Segundo Andréia, que integra o quadro docente da Pós-Graduação da Unifor, o projeto busca construir 25 EVAs, dos quais 15 serão cedidos para leitos de Covid-19 da UTI do Instituto Dr. José Frota (IJF), e o restante seguirá disponível para os pesquisadores continuarem aprimorando o estudo, ou para outros hospitais que tenham interesse.

O segundo projeto envolvimento o monitoramento do quadro de saúde, detalha, tem foco nos idosos. “Este projeto monitora, por meio de visão computacional, a marcha de indivíduos e emite alerta quando há ocorrência de quedas”, destaca.

Andréia Formico usou a própria história de vida como inspiração para um projeto de jogos transformacionais. (Foto: Alex Campêlo)

O outro estudo ao qual a cientista se dedica tem foco na área de jogos transformacionais utilizados como auxiliares no tratamento contra o câncer de mama. Os jogos desenvolvidos pela professora e a equipe que ela coordena apresentam fundo educacional, os quais impactam no comportamento do usuário. Este projeto tem como público-alvo tanto os profissionais da saúde, residentes e estudantes de Medicina, quanto pacientes, familiares e amigos, contribuindo assim para o exercício do diagnóstico clínico, compreensão do problema e aumento da empatia frente ao câncer de mama.

“É um projeto de vida, tenho um carinho muito especial, uma vez que é inspirado em minha própria história de vida, assim como na história de vida de tantas outras mulheres amadas e maravilhosas que passaram ou estão passando por essa dura jornada”, relata a cientista. 

Dever cumprido

O currículo de Andréia é extenso e compila, além do Ph.D pelo Imperial College London, mestrado em Engenharia Elétrica e bacharelado em Matemática Aplicada e Computacional, ambos pela Universidade de Campinas (Unicamp); e pós-doutorado no Entertainment Technology Center (ETC), da Carnegie Mellon University, nos Estados Unidos. Outro título ressaltado por ela, mas que nem sempre figura nas plataformas acadêmicas, é o de ter feito parte da evolução e aprendizagem de muitos alunos em suas respectivas carreiras acadêmicas.

“O maior prazer nessa hora é ver os ‘monstros’ criados e acompanhá-los em seus primeiros voos por mares nunca antes navegados. Não tem preço essa experiência”, diz. A sensação, pontua, é de que tudo valeu à pena, inclusive as madrugadas em claro, trabalhando na educação de cada orientando em pesquisa, validando experimentos e treinando para apresentações nacionais e internacionais.

“Como consequência deste processo, dentre todos, me orgulho de estar, considerando todos os programas de Pós-Graduação em Computação do Norte e Nordeste do Brasil, pela terceira vez, entre as dez melhores orientações de dissertações de mestrado no Brasil, competindo com universidades estaduais e federais e programas nota máxima na classificação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Só tenho a agradecer, sempre”, reforça a professora.

Ideias em desconstrução

Como quase todas as mulheres que se dedicam à ciência no Brasil – e no mundo – , a carreira acadêmica de Andréia enfrentou algumas “chateações primitivas pelas quais as mulheres ocasionalmente passam, como assédios e exageros reacionais”. Ainda assim, a pesquisadora é direta ao afirmar que o fato de ser mulher nunca impactou negativamente na vida acadêmica.

Mudar essa cultura de exclusão pode levar tempo, porém ela afirma que a pesquisa acadêmica é um espaço interessante e transformador nesse aspecto. “Só sabe quem experimenta. O fato de ser mulher nunca impactou negativamente na minha vida acadêmica, assim como nunca me impediu, por exemplo, de liderar e participar de importantes grupos em nível nacional e internacional“, garante.

Andréia acredita que a própria jornada está associada à criação materna, que lhe proporcionou uma visão de mundo diferente, mesmo com condições financeiras desfavoráveis. “A voz da minha mãe não cansava de dizer que aquilo que escolhesse ser, teria que me esforçar para fazer bem feito, para poder aprender e crescer”, recorda.

Pesquisadora da Unifor, a cientista da computação é direta ao afirmar que o fato de ser mulher nunca impactou negativamente na vida acadêmica. (Foto: Alex Campêlo)

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Ela cita que, ainda hoje, é perceptível a dominação dos homens na ciência, contudo reforça que é necessário desconstruir a ideia de que a aptidão para às ciências exatas é uma característica masculina. Para a pesquisadora, são necessárias mudanças na participação feminina no campo das ciências exatas que representem, a longo prazo, uma igualdade.

Das meninas que prestam vestibular, afirma Andréia, apenas 5% ou 10% escolhem Computação, índice que precisa ser melhorado, segundo avalia. “Sendo minoria, obviamente o poder nem sempre está em nossas mãos, apesar de, em geral, termos uma capacidade de resiliência admirável, estratégica em todos os momentos. Prova disto foram os vividos nesta pandemia, em que vimos tantas mulheres guerreiras equilibrando trabalho, família, casa, etc.”, considera a cientista.

Desafios a longo prazo

Na perspectiva macro, a falta de fundos para auxiliar nos estudos é um dos maiores desafios para quem quer seguir a carreira de cientista no Brasil, seja mulher ou homem, de acordo com Andréia Formico. “Viver sob o medo dos cortes no orçamento destinados à pesquisa não é nada salutar para ninguém. Contingenciamentos promovidos pelo Governo Federal geram momentos bastante difíceis para a ciência”, relata. 

De acordo com a professora, as principais agências de fomento do País, a exemplo do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), já apresentava pontos de fragilidade, contudo, a situação se agrava pela pandemia do novo coronavírus, alertando a comunidade científica, tecnológica e de inovação do Brasil. 

“Essas situações acabam fazendo com que os jovens que estariam pensando em ser cientistas mudem de ideia, bem como professores e pesquisadores de primeira linha desistam de permanecer no País. Toda decisão tem uma consequência, certamente conheceremos os efeitos a longo prazo. O momento é extremamente desafiador, não só para a ciência, mas para a educação em geral”, reforça 

A falta de fundos para auxiliar nos estudos é um dos maiores desafios para quem quer seguir a carreira de cientista no Brasil, de acordo com Andréia Formico. (Foto: Alex Campêlo)

Ela reconhece que no Ceará, o Governo do Estado, por meio da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), demonstra apoio aos projetos de inovação científica. “A Funcap basicamente anda na contramão das iniciativas, quando comparada a tantas outras agências de fomento do nosso País. Nós, pesquisadores do Ceará, só temos a agradecer o reconhecimento e a credibilidade aportados”. 

‘Eterna sina’

“A carreira científica é um investimento pessoal na busca incansável pelo conhecimento. Uma eterna sina de todo pesquisador”, define Andréia sobre a carreira acadêmica. E para as mulheres que desejam ser cientistas, ela diz: “Cada mulher deve perseguir e lutar pelos seus sonhos, em busca da felicidade. A vida é uma bela jornada, ninguém disse que seria fácil, mas é possível traçar belos desenhos por onde passar, criando lindas histórias”.  

E no caso específico das meninas que projetam no próprio futuro uma jornada lado a lado com a ciência, Andréia coloca a história de vida dela como exemplo. “O bem que se conquista é intangível, não tem preço. É uma grande viagem, repleta de desafios e conquistas, com a importante missão de avançar o estado-da-arte, contribuir para a academia, indústria e sociedade em geral, impactando e transmitindo o conhecimento adquirido”, declara a pesquisadora. 

Este conteúdo tem o apoio da Pós-Unifor, a pós que evolui com o mundo.

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