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Mulheres na Ciência: Raimundinha Magalhães se dedica aos apps de Saúde Móvel

Por Jéssica Colaço
Mulheres na Ciência: Raimundinha Magalhães se dedica aos apps de Saúde Móvel
Professora dos programas de mestrado e doutorado da Unifor, Raimundinha Magalhães é a quinta entrevistada do "Mulheres na Ciência". (Foto: Alex Campêlo)

Monitorar consultas, prevenir acidentes, orientar atendimentos e compartilhar cuidados básicos com a saúde são algumas funcionalidades executadas por meio da mHealth, (ou Saúde Móvel, em português), prática médica baseada em oferecer serviços de saúde a partir de dispositivos móveis, como o celular. No Ceará, os estudos dedicados à área não apenas colocam o estado na vanguarda do segmento, como já resultaram no desenvolvimento de aplicativos voltados para melhorar o bem-estar, sendo cinco deles sob a supervisão da pós-doutora em Saúde Coletiva Raimundinha Magalhães.

Mulheres na Ciência é um conteúdo especial desenvolvido pela plataforma MT em parceria com a Universidade de Fortaleza (Unifor) para dar visibilidade ao trabalho de mulheres cientistas que atuam no Brasil. A professora Raimundinha Magalhães é a quinta entrevistada da série.

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“Outras universidades no Brasil têm essas linhas de pesquisa, mas nós somos bastante atuantes nessa área de tecnologia, até por conta do suporte que a universidade oferece pra gente”, acrescenta Raimundinha, que é professora dos programas de mestrado e doutorado da Universidade de Fortaleza (Unifor), onde desenvolve as pesquisas de mHealth.

Um dos projetos de pesquisa coordenados pela professora se desdobrou em quatro apps de promoção da saúde da mulher: um com foco na qualidade do pré-natal; outro voltado para o atendimento de grávidas com sífilis; um que orienta sobre cuidados com a voz, o VoiceGuard; e um aplicativo destinado aos profissionais que atendem mulheres vítimas de violência sexual, o Evisu.

Um dos projetos de pesquisa conduzidos por Raimundinha Magalhães resultou em quatro apps voltados para a promoção da saúde da mulher. (Foto: Alex Campêlo)

“Tudo começou com o Evisu. Eu tive uma pós-doutoranda que trabalhava muito a questão da violência sexual, e o Eurico Vasconcelos, do Nati (Núcleo de Aplicação em Tecnologia da Informação da Unifor) se prontificou a desenvolver algo com a gente”, lembra Raimundinha. Segundo ela, o aplicativo orienta pessoas que lidam com mulheres que sofreram violência sexual, deixando o atendimento mais humanizado, e já foi objeto de estudo em dissertações de mestrado e teses de doutorado.

Já o VoiceGuard, que fornece orientações para quem usa a voz como instrumento de trabalho, também virou objeto de estudo de mestrado e doutorado de outros pesquisadores e rendeu, também, uma parceria com uma universidade de Portugal. “Todos eles foram desenvolvidos na universidade e já estão sendo usados. São aplicativos que empoderam as mulheres de conhecimento”, detalha.

O quinto app em desenvolvimento, sob a coordenação de Raimundinha, tem foco na prevenção de suicídios em idosos, reunindo informações para os cuidadores e familiares detectarem precocemente os sinais que possam levar a essa atitude.

Curiosa e instigada

Somando 40 anos dedicados ao ensino e pesquisa, Raimundinha Magalhães segue curiosa e instigada a conduzir mais projetos, motivada, segundo ela mesma diz, pelo potencial de descoberta que a ciência tem.

“A pesquisa é realmente uma coisa que você desenvolve e não tem fim. Quando você finaliza uma, vê que rende outra, e mais outra, e vai buscando desdobramentos para novos estudos”, define.

Graduada em Enfermagem, ela conta ter escolhido a área por se identificar com o ofício de cuidar do outro, mas logo que concluiu a graduação, começou a lecionar na Universidade Federal do Ceará (UFC), em 1980. “Ensinei lá, depois me aposentei e fui convidada para a coordenação de pós-graduação em Saúde Coletiva da Unifor, onde fique por 12 anos”, lista. Durante essa jornada, desenvolveu inúmeros projetos de pesquisa com financiamento público, trabalhos que renderam resultados valiosos, mas também a colocaram em contato com as dificuldades de fazer ciência no Brasil.

Graduada em Enfermagem, a pesquisadora conta ter escolhido a área por se identificar com o ofício de cuidar do outro. (Foto: Alex Campêlo)

“Muitas vezes não temos o suficiente para atender às necessidades financeiras. Coordenadores de projetos de pesquisa não recebem dinheiro para fazer isso, então às vezes precisamos tirar do próprio orçamento para pagar um bolsista”, aponta Raimundinha. Além disso, argumenta ela, o próprio recurso humano é escasso, uma vez que os estudantes não são estimulados a serem pesquisadores e, com isso, nem sempre é possível montar uma boa equipe.

Além disso, o processo burocrático envolvido em financiamentos é outro ponto apontado pela professora como dificuldade no ofício de cientista. “Às vezes temos dificuldades em fazer toda a prestação de contas. Se tivesse um órgão dedicado a isso, por exemplo, facilitaria bastante”, sugere.

Caminho reflexivo

Mas o mesmo ímpeto que motiva Raimundinha a seguir produzindo e difundindo conhecimento, impulsiona a pesquisadora a superar essas dificuldades e convidar mais estudantes – principalmente mulheres – para ingressarem nesse infinito universo de descobertas. “Pesquisar dá trabalho”, reconhece ela, mas vale a pena.

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“Precisa estuda, pensar, discutir em grupo se aquilo vale a pena, quais produtos você vai oferecer para a sociedade, para a academia, para novos pesquisadores. Tem que ter paixão, interesse, motivação e bom senso, muitos questionamentos. Mas você cria, inova, está sempre descobrindo coisas novas. É o caminho reflexivo para o futuro, a pesquisa é o futuro“, atesta.

Este conteúdo tem o apoio da Pós-Unifor, a pós que evolui com o mundo.

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